Este é o meu quartinho de bagunça. Da embalagem vazia de Chokito ao último livro do Saramago que eu não terminei de ler, você encontrará aqui de tudo um pouco.

quarta-feira, outubro 31, 2007

Saudade, amor e gratidão.


Às vésperas do dia de Finados, e não à toda, percorri o cemitério de pequenos animais do meu trabalho em busca de inspiração para um texto sobre luto. Mais especificamente, o luto pela perda de um animal de companhia. Tudo nas lápides que lia me levava a concluir que o bom convívio de uma pessoa com seu peludinho inevitavelmente resulta em amor -- e um amor tão gigante que, como falou Kundera, chega mesmo a escandalizar --, gratidão e, eventualmente, porque a vida não é perfeita, em saudade. Uma saudade impossível de se colocar em palavra, e olha que saudade já é a palavra mais exata que existe, dentre todos os idiomas do mundo, pra designar essa dor que não tem cura.

Na verdade, como profissional de Saúde Pública, eu deveria usar esse texto como prelúdio para explicar (a essa gente que precisa de explicação pra tudo) que quando o cadáver de um animal é displicentemente jogado no lixo ou mesmo dignamente enterrado no fundo do quintal ou no parque preferido do bichinho, ele pode contaminar o solo e os lençóis freáticos. É por isso, e não por ser excêntrico ou exótico, que a prefeitura do Rio oferece à população os serviços de um cemitério e de dois crematórios de pequenos animais.

Mas aí, quando me pus cara a cara com o luto, com tanta saudade e gratidão ("pelos 15 anos de alegria", "pela maravilhosa companhia"), fiquei com o texto institucional engasgado na garganta. Flagrei-me fazendo contas pra saber a idade do Povo Brasileiro e da Princesa Radija, sempre errando pra menos, por mais que eu me concentrasse, e então novamente me lembrei do Kundera em "Insustentável Leveza do Ser": ele teria me dado uma bronca feia, pois eu estava pensando nos meus peludos com a consciência pesada da morte. É certo que eles estão bem vivos e, enquanto a vida sorri ou abana a cauda, não se deve pensar em sua antagonista. Fim de papo. Não quero mais escrever sobre luto, eu não sei escrever sobre luto. Só uma pessoa emocionalmente inteligente pode falar sobre luto, e isso não é pra mim.

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Saudade, amor e gratidão.
Saudade, amor e gratidão.
Saudade, amor e gratidão.

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Quando perdemos um amigo tão querido, devemos entrar em quarentena afetiva -- sim, há os que chamem isso de luto --, pra dar uma chance pro coração reencontrar seu compasso. A duração dessa quarentena não depende do tamanho do amor, nem da saudade, e sim da subjetiva e individual capacidade de aceitar alguns fatos burros da vida. Como este: se o cão é o melhor amigo do homem, por que foi feito tão menos longevo?

Não quero mais falar sobre luto, pronto. Eu não posso, não é pra mim.