Este é o meu quartinho de bagunça. Da embalagem vazia de Chokito ao último livro do Saramago que eu não terminei de ler, você encontrará aqui de tudo um pouco.

domingo, fevereiro 17, 2008

Parentesco e criminalidade.

Com as obras de reforma do canil do IJV, em curso desde dezembro passado, eu estou tendo a oportunidade de ter acesso a coisas estranhas que eu, talvez por ingenuidade, talvez por pura preguiça, jamais tive na vida. Uma delas é a trabalheira que dá fazer uma obra: nada é o que parece numa obra. O que aparentemente é só um muro bolorento por causa de telhas mal posicionadas revela-se um vazamento subterrâneo deveras sinistrinho oriundo de uma tubulação de ferro centenária que se esconde junto a esqueletos de dinossauros e tesouros de piratas. Há mais entre um projeto e uma obra finalizada do que supõe nossa vã filosofia, por isso eu tenho minhas reservas antes de fuzilar os responsáveis por obras que nunca acabam, como a da Cidade da Música, porque, de maneira bastante estranha, pode até ser que eles estejam agindo de boa fé. Vai que lá também haja um cano de ferro centenário cujos vazamentos hexagenários abastecem todo o lençol freático da cidade. Até que o MP desça o martelo e prenda alguém, e desde que os juízes, policiais e parlamentares não estejam todos mancomundados em torno de cartões corporativos, no Brasil, nunca se sabe. Mesmo correndo o risco de parecer antipática, somos todos ladrões em princípio. A arma usada pela maioria é justamente a passividade.

O IJV, meu trabalho, é vizinho de muro com a favela da Mangueira. Na verdade, os nossos muros de quase 90 anos são usados por nossos vizinhos, às vezes, para compôr um quartinho aqui, uma sala acolá ou um puxadinho no quintal. Até aí, tudo bem: não vamos brigar por causa de um cadinho de tijolo e cimento que pode perfeitamente ser compartilhado, já que a gente só usa o lado de cá e eles o de lá. Seria tudo lindo se fosse só isso, mas a vizinhança também usa nossa água e energia. Quando o pessoal da obra tentou entender de onde vinha o vazamento, descobriram dezenas de ramificações de nossas tubulações aéreas para o lado de lá. Eu olhava aquelas evidências fantásticas de furto e imaginava: como foi que eles conseguiram fazer isso sem ninguém perceber? Imaginava quanta água não devia ter sido derramada, quantos cães não teriam sido afogados para que alguém sem acesso ao registro de nossa cisterna conseguisse enfiar um joelho de nossos canos pro além-muro. Até que um funcionário antigo me elucidou: "Ô, dôtora, o pessoal não precisa ter esse trabalho todo, não. É só dar um troco pra firma da obra, que eles mesmos colocam os gatos." Meu deus, eu disse: "Então um colega meu de prefeitura enfiou uns trocados no bolso há 16 anos para que nossos bolsos fossem sangrados em 3 vezes esse valor todos os meses por todo esse tempo?!? E enquanto isso, quantas vezes não tivemos de cancelar cirurgias porque ficamos sem material? Isto é horrível!" Nem preciso dizer que todos me olharam com a compaixão típica que se sente por pessoas inaptas à vida de uma forma ou de outra. Na verdade, todo mundo acha um absurdo, mas parece haver um concenso nacional sobre a nossa impotência diante do absurdo. De certa forma, todos nós achamos que fechar o bico e não se envolver é a única atitude sensata a se adotar.

O sobrinho de uma conhecida, funcionário da Light, foi enviado a um bairro humilde com a tarefa de subir num poste e cortar uns gatos que de lá saíam. Estava o gajo lá no alto, com a dignidade exposta, quando surge um grupinho de pessoas humildes lá de baixo, que lhe perguntam: "O que você está fazendo?". "Cortando umas ligações clandestinas", ele semi-responde com o coração na garganta. Os amigos dos amigos sugeriram que se ele cortasse alguma coisa ali, ele também seria cortado. Se os funcionários da Light pudessem voltar pra casa de helicóptero, ele teria pedido o resgate naquele instante, mas achou melhor ficar ali por mais duas horas, no alto, apavorado, para que seus prezados amigos pudessem constatar que nada havia sido cortado, exatamente como tinham acordado de forma tão amistosa.

Voltando ao meu trabalho, para resolver esse tipo de impasse, temos um funcionário que mora na comunidade há décadas e é, digamos assim, uma espécie de Itamaraty no IJV: ele faz a ponte entre nós e a favela, é ele quem possibilita que o tênue limite do muro não seja profanado por um dia de fúria e mal entendidos, como esse do corte de gatos. Ai de nós querer cortar a água gratuita da vizinhança! Nós também não voltamos pra casa de helicóptero e nossos ônibus coletivos não são blindados. Minha inaptidão à vida me faz achar que não custa nada tentar explicar pra galera do além muro que roubar água não tem nada a ver, que a gente precisa dessa grana pra salvar vidas, mas o embaixador comunitário me pede, mão sobre meu ombro, que eu tenha cuidado com as palavras que uso.

Tenho tanto cuidado, que outro dia fiquei chocada quando um vizinho do lado de lá chamou minha chefe ali, perto de sua janela com vista pro nosso canil: "Aí, tia, como é que eu tiro essa grade aí de vocês pra poder subir meu muro?" Ele estava se referindo ao nosso muro: ele queria tirar a grade sobre nosso muro para subir o "seu" um pouco mais. Minha chefe, que é pelo menos 10 anos mais jovem que aquele senhor, foi gentil e sugeriu que ele consultasse a administração do instituto. Quando nos afastamos, eu perguntei: "Impressão minha ou esse marmanjão barbado te chamou de tia?" Ela me explicou que "tia" é gíria de favela. Meu deus, eu pensei, pessoas adultas chamando outras pessoas adultas de "tia"... isto é horrível! Pior que isso, imagino, é saber que independentemente de sermos tias ou tios, mães ou pais, irmãos ou irmãs de quem quer que seja, somos todos responsáveis pelos roubos cometidos por políticos, servidores públicos, reitores e vizinhos. Enquanto não desativarmos o Itamaraty que existe em nós para mostrar nossas armas, enquanto não tomarmos partido, as notícias de roubos cometidos contra o erário nunca deixarão de parecer um rol de anúnicos sem qualquer importância exibidos num classificados de horrores.

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