Este é o meu quartinho de bagunça. Da embalagem vazia de Chokito ao último livro do Saramago que eu não terminei de ler, você encontrará aqui de tudo um pouco.

sexta-feira, maio 16, 2008

Na boca do povo

A dureza tem lá suas vantagens: andar de ônibus e ouvir a conversa de pessoas com quem você provavelmente nunca teria a chance de conviver é uma delas. Por apenas dois reais e dez centavos, qualquer cidadão com a audição perfeita (e sem um iPod implantado profundamente nos tímpanos) pode saber o que o povo anda dizendo nas ruas. Ontem eu descobri o que o leitor do Extra pensa do veto ao cigarro nos fumódromos e áreas reservadas a fumantes em bares e restaurantes do Rio de Janeiro, mas antes preciso dar a minha opinião, que eu sou uma pessoa muito cheia de opinião e às vezes a opinião é tanta que eu fico sufocada, como agora!

Pra começar, confesso que achei confusa, pra não dizer divertidamente maquiavélica, a forma como o governo planejou a extinção do tabagismo. Devem ter pensado assim: vamos eliminar os fumantes devagarinho pra não dar muito na pinta. Seguindo esse planejamento malévolo, primeiro criaram a lei que separa conceitualmente fumantes de não fumantes, sobretudo em ambientes coletivos. Esta, diga-se de passagem, foi uma iniciativa inócua, pois, na prática, a área de um em nada difere da área de outro, a começar pela atmosfera carregada de fumaças rebeldes que não respeitam plaquinhas. Antes dessa lei, deveriam ter sancionado outra pra obrigar as fumaças de cigarros, charutos e cigarrilhas a freqüentarem a classe de alfabetização: só então elas saberiam se comportar, evitando as áreas onde se lê "proibido fumar". Pra uma coisa, pelo menos, essa besteira serviu: pra chamar a atenção da sociedade pro fato de que fumantes são elementos nocivos à Saúde Pública e os não-fumantes, coitadinhos, suas vítimas. Antes que me trucidem, preciso esclarecer: isto não foi idéia minha, e sim dos legisladores. Espalharam cartazes com fotos de garçons e mensagens sobre a relação câncer X fumo passivo . Ou seja: o fumante é tão mau, mas tão mau, que é capaz de matar de câncer até o seu garçom preferido! O macarthismo não é necessariamente ruim se conseguir abrir um bom debate e, neste caso, abriu. O não-fumante saiu do armário e o fumante ficou mais ciente de que seu prazer pode muitas vezes significar o desprazer ou até a desgraça do outro.

Depois, quando os bares e restaurantes já estavam acomodados com seus fumódromos subjetivos, vem o governo, proibe o fumo e ponto. Não pode fumar em bar, restaurante, universidade, trabalho, shopping, fumódromo, enfim, não pode fumar e pronto. Quer fumar, meu amigo? Vai pra casa! Quer fumar fora de casa? Vai pro meio da rua ou pra calçada, mas desde que o senhor fique longe o bastante das portas que delimitam ambientes coletivos fechados, pois se ficar perto, a-ha!, o dono do estabelecimento tem de chamar a polícia pra lhe enquadrar, senão ele mesmo paga multa de R$2000. Reincidiu? Pague o dobro! Enfim, se a lei pegar, vai ser uma raridade ver uma pessoa fumando por aí porque a nova lei municipal, que entra em vigor em junho, deixa o fumante sem lugar. O cara que ousar fumar na rua vai ter de estar de tênis pra correr da horda enfurecida.

A nova lei parece dura, e realmente é. Mas já não era sem tempo! Esqueçam temporariamente o peso do tabagismo nas contas do SUS (e também nas mensalidades dos planos privados de saúde), pensem só nos conceitos básicos de civilidade: se peidar fosse um vício e eu fosse viciada, confesso que teria vergonha de peidar seguidamente em ambientes coletivos, afinal o cheiro é desagradável e incomoda os outros. Infelizmente, os fumantes não pensam em seus cigarros como um tipo de peido, e acham tudo bem expôr os outros aos seus fedores e gases tóxicos. Tão tóxicos que causam aborto e todas aquelas coisas medonhas que publicam em embalagens de cigarro. Nada contra o fumante, sou louca por um sem número deles e até sorvo seus fumacês bem caladinha e resignadamente em prol da boa conversa, mas é claro que eu preferiria respirar só a poluição atmosférica que me compete, e olha que não é coisa pouca.

Aí, voltando pro meu 572, ouço o trocador dizer pro motorista: "Cê vê: o César Maia, agora que vai sair, depois de ter mamado nas tetas do Rio desde 92, resolveu sacanear todo mundo. Primeiro proibiu os caminhões na cidade: agora, pra fazer entrega, neguinho tem de se virar fora do expediente. Depois ele pega e faz essa lei aí, a tal que proibe o fumo em tudo quanto é lugar. Sacaneou os bares e restaurantes. Ele vai sair mesmo, meu amigo, então não quer nem saber. A gente é que se dane!"

Fiquei curiosíssima pra saber se ele era motorista de caminhão nas horas vagas ou se tinha algum bar ou restaurante freqüentado por muitos fumantes. Talvez ele alternasse os turnos de trocador com o de garçom num bar onde as melhores gorjetas costumam vir das mesas com cinzeiro. Tive muita vontade de debater, de perguntar o que mais, de entender como ele tinha uma opinião tão incisiva e tão absolutamente diferente da minha, mas logo ele escondeu a cara com um jornal que tinha uma bunda enorme de mulher estampada na capa. Então eu encerrei o caso por excesso de provas.

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