Este é o meu quartinho de bagunça. Da embalagem vazia de Chokito ao último livro do Saramago que eu não terminei de ler, você encontrará aqui de tudo um pouco.

domingo, janeiro 20, 2008

Carnaval, dureza e ciclone

Ontem uma dúvida me assolou a manhã inteira: como estava quente à vera, e como eu já tinha tomado 3 banhos gelados para me secar na frente do ventilador com pedras de gelo na nuca, eu não sabia se iria pra concentração do Spanta Neném de bike, de ônibus com ar condicionado ou se ficaria em casa, sofrendo de calor. Todo mundo sabe que o Spanta Neném sai no horário mais cáustico do sol de verão carioca, que é pra espantar neném mesmo, mas ontem foi trevas. Eu queria acreditar no "pdf" com a programação carnavalesca oficial do Rio, que dizia que o bloco de carnaval sairia às 16h do Parque dos Patins, mas a galera iniciada sabia que a saída era mesmo às 14h, e não se fala mais nisso (esses guias oficiais nunca estão certos). Foi então que o irmão da Daisy me ofereceu uma carona de moto, e lá fomos nós, fresquinhos da vida, encontrar com os foliões nossos amigos por volta das 17h -- um atraso programado tipicamente carioca.

Tomamos uma cerveja (2 reais e 3 pontos) e lá estava eu, feliz da vida por estar me divertindo com o preço de uma passagem de van, quando vejo o Cristo desaparecer em alguma bruma que, de longe assim, me pareceu até meio mística. Um lampejo de realidade, no entanto, me fez lembrar que felicidade de pobre é programada para durar pouco. "Vai chover", disse pro André. Ele, que anda de moto e entende de meteorologia como qualquer motoqueiro ou surfista, olhou pras árvores (para entender a direção do vento), e concluiu: "Vai, mas não aqui." Não deu nem cinco minutos e a bruma nos engoliu. Vi ondas de porte tsunâmico se formarem na Lagoa e notei que os coqueiros quase tocavam o chão com suas folhas. Temi pela integridade física de meu celular, que enrolei, desligado, num plástico pestilento que encontrei no chão, mas o samba estava bom demais pra gente desistir por tão pouco. Pelo menos, para nós que estávamos no olho do furacão, parecia muito pouco: apenas uma chuveirada grossa, que que tem? Já tomei banhos de cachoeira mais fortes que aquilo. Estava quente mesmo, precisava chover! E daí que eu tenha sido atingida por uma saraivada de granizo na testa? Pra quem passou a manhã inteira com gelo no cangote, aqueles petelecos espontâneos de gelo eram até muito bem-vindos, desde que não ficassem grandes o bastante para contundir meu crânio. Mais adiante, sambando descalça, cortei meu pé em cacos de vidro, mas e daí? Calcei a sandália, que era vermelha mesmo, e ninguém notou que meu pé sangrava um pouquinho naquela poça de leptospirose em que se transformou a Lagoa. E o que é a leptospirose diante da febre amarela, heim, heim? Eu estava era bem feliz da vida, afinal tinha dispensado apenas dois reais e era a prova viva de que ninguém precisa de dinheiro pra ser feliz. Esquindô, esquindô.

Na volta, tive uma percepção menos mágica do que tinha sido a chuva: árvores caídas sobre carros e calçadas, telhas atiradas violentamente do alto de prédios (poderiam ter matado alguém), enfim, um cenário de caos. Tudo bem que fez um pouco de frio quando voltei de moto com o vestido encharcado, mas há tempos não me sentia tão livre e tão simples. O carnaval faz isso com a gente.

Talvez o carnaval seja um estado de espírito. O melhor que existe.

Já vi cachoeiras piores que a chuva de ontem.

As brumas de Avallon

Olha o André aí, gente!

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