Este é o meu quartinho de bagunça. Da embalagem vazia de Chokito ao último livro do Saramago que eu não terminei de ler, você encontrará aqui de tudo um pouco.

terça-feira, abril 15, 2008

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Muito estranho, esse tal de ser humano. A gente perde tanto tempo reclamando de tudo, que muitas vezes nem se dá conta de que a vida é linda. Eu, que sou rainha do queixume, precisei desenvolver métodos sofisticados de percepção-otimista para que eu possa convencer meu seqüelado cérebro de que eu sou feliz agora, a fim de evitar a frase mais triste que uma pessoa pode entoar, a fatídica "eu era feliz e não sabia". Porque eu quero saber, sim, e quero ser, sim, feliz, muito embora a felicidade seja um conceito abstrato ensaboadíssimo que vagueia entre a pieguice brega e a intangibilidade djavaniana do ser, criei marcadores palpáveis para a dita, a saber:

1. Quando eu tenho dificuldade de decidir se estou trabalhando ou me divertindo.

Um bom exemplo disto foi minha incursão ao Parcão da Lagoa no domingo passado. Aproveitando que fiquei de babá da Lála, poodle fofa que eu hospedo aqui de vez em quando, e aproveitando-me do fato de que eu e Lála precisamos pegar sol e queimar muitas calorias, fui ao Parcão para soltar as cachorras - eu e a dita - e ver como funciona o parque canino mais badalado da zona sul, quais as aspirações dos proprietários que ali freqüentam, o que a prefeitura faz ou poderia fazer para melhorar o serviço, enfim: fui sondar, como veterinária de saúde pública e bem-estar animal do município, a quantas andava aquilo lá. Depois de tanto filmar, fotografar, conversar com os donos de cachorros fofos e me divertir, pensei: "agora tenho que escrever um relatório sobre isso, quiçá um livro!" Ou seja, eu estava trabalhando - uma verdadeira pesquisa de cão, pô! -, e não percebi. Fiquei bem feliz.

2. Meu corpo me obedece.

Toda vez que eu mando meu corpo correr 10 km e ele encara, apesar de toda sorte de maus tratos infligidos, fico tomada duma comoção chorosa arrepiante. Meu corpo me é tão fiel, coitadinho, que eu sinto que preciso cuidar mais dele. Afinal, o cara merece. Aí eu fico feliz porque, apesar dum queixume sazo-sinusital típico e duma asma aqui e ali (mas também, num mundo tão cheio de ácaros e poeira cósmico-existencial!), eu tenho boa saúde. De uma forma controversamente pollyânica e politicamente incorreta, eu sei bem o que é não ter saúde. Não quero pensar nisso apenas quando as circunstâncias me obrigarem a tomar antibiótico, ir a médico ou coisa pior. Sobretudo coisa pior.

3. Abstinência aguda de pessoas queridas.

Quando eu estou bem, necessito estar entre as pessoas que eu amo. O contrário também é verdadeiro: quando estou mal, sumo do mapa sem deixar rastros, porque afinal ninguém merece ser contaminado pelo mal-estar alheio. Foi pra isso que inventaram as cavernas: para as pessoas se enfiarem lá dentro até a expulsão de seus próprios demônios. Quando estou assim, exorcizada, pronta para mais uma primavera afetiva, sinto uma falta danada dos meus amigos. Exatamente como agora. Em outras palavras: eu sou feliz e sei muito bem disso, obrigada.

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