Este é o meu quartinho de bagunça. Da embalagem vazia de Chokito ao último livro do Saramago que eu não terminei de ler, você encontrará aqui de tudo um pouco.

sábado, junho 14, 2008

Calvário

O Instituto de Veterinária onde eu trabalho é grande pra chuchu: da guarita de entrada aos fundos, há cerca de 500 m de terreno em aclive. No topo desse ladeirão, fica o Setor de Destinação de Animais. Os clientes do Instituto sobem a ladeira em busca da Destinação de Animais para tratar de ganhos - adoção de peludos sob nossa tutela - e perdas - sepultamento, cremação e eutanásia humanitária de animais doentes sem chance de cura, sendo “sem chance de cura” um diagnóstico devidamente validado por um dos veterinários de nossa criteriosa equipe. Não aceitamos os critérios de mais ninguém, pois cada um sabe dos critérios que tem, e cada qual que arque com o karma disso.

Quem conhece o Instituto sabe que não tem outra: subiu a ladeira até o topo de nosso terreno, só pode ser ganho ou perda. Sempre torcemos pra que seja um ganho, claro, pois não somos japoneses nem nada para celebrar a morte. Mas os ganhos são poucos e as perdas são muitas, e sempre muito sofridas.

Toda vez que vejo alguém subir aquela ladeira com um bichinho nos braços, sinto o coração apertar e tento não olhar muito, porque se meu olhar cruza com as lágrimas que rolam ladeira abaixo, o chão some sob meus pés e eu passo a suar de nervoso. Pelos olhos.

Nenhum veterinário gosta de fazer eutanásia. Nenhum veterinário que seja também um ser humano faz eutanásia sem que isso seja realmente necessário. E isto torna a escalada daquela ladeira ainda mais pesada: ao subir o Monte Calvário, o proprietário sabe que está vivendo os últimos momentos do idílio com seu melhor amigo, e sabe que ao chegar ao topo um veterinário o irá apoiar e não irá recuar, pois esta é a coisa certa a se fazer por um grande amigo que sofre sem chance de alívio. E foi por isso, porque eu sei que esta escalada é o derradeiro ato de amor de uma pessoa por seu cão ou gato, que eu interpelei um senhor que fazia esse percurso à toda velocidade com seu pastor alemão, na semana passada.

A cena me lembrou muito da crônica de Nárnia em que o Rei Leão sobe a colina para sua própria morte: aquele cão tinha o mesmo porte majestoso do herói do livro, mas sua respiração difícil e seu andar claudicante denunciavam o final da jornada. Porque estava quente, e porque o cão estava amordaçado, em vez de responder àquele homem que sim, ele estava no caminho certo para o Setor de Destinação de Animais, eu disse:
- Mas por que a pressa, meu senhor? Seu cão está cansado, respira com dificuldade. É mesmo necessário usar esta mordaça?
- Ah, dona, ele é uma fera. Mas só com os outros: comigo, é meu melhor amigo.

E pôs-se a chorar. Eu afaguei seu ombro e sugeri que ele descansasse um pouco à sombra com seu melhor amigo. Que lhe tirasse a mordaça. Que o deixasse descansar, pois dá muito trabalho caminhar com dor e sem o apoio de uma das patas. Que ele abraçasse seu cão para guardar a sensação, porque a saudade que fica é muita. E por fim, que ele não duvidasse jamais de seus sentimentos por aquele amigo, que saber a hora de dizer adeus é uma das mais importantes manifestações de amor.

Despedi-me do homem que chorava com o rosto enterrado em seu cão e desci a ladeira sem olhar pra trás. Não que eu não suportasse mais ver a repetição daquela cena triste, mas há dias em que é impossível não morrer um pouquinho ao se imaginar nesse mesmo lugar, subindo essa mesma ladeira que depois só desce, desce, desce.

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