Este é o meu quartinho de bagunça. Da embalagem vazia de Chokito ao último livro do Saramago que eu não terminei de ler, você encontrará aqui de tudo um pouco.

quarta-feira, junho 06, 2007

Colcha de retalhos

Minha avó, que Deus a tenha, é constante tema de nossas conversas à mesa. Talvez porque a mesa sem ela seja uma coisa vazia, a gente sempre dá um jeito de sentá-la conosco de forma simbólica e alegre, lembrando das histórias dessa véia doida que parece mais viva do que nunca em nossos corações. Hoje, não sei porquê cargas d'água, parece que o universo conspirou pr'eu pensar na minha velhinha umas vinte vezes no decorrer do dia. Lembrei de pequenas coisas dela que me dão saudades, como:

1. Quando eu ia almoçar em sua casa pra depois ir à analista, que era a poucas quadras do QG matriarcal. Ao se despedir, ela dizia: Vai com Deus, minha filha, boa aula. E eu dizia: Não é aula, não, vó. É análise: tratamento crônico pra maluco. E ela: Ah. Bom isso aí também!

2. Ela queria participar de todas as coisas que uma pessoa de mais de noventa anos não costuma participar, como o mutirão de busca & apreensão da Princesa Radija, quando ela fugiu uma vez de nosso sítio em Miguel Pereira e meus pais mobilizaram estações de rádio, jornais locais, todas as viaturas da polícia e algumas dezenas de pessoas que circulavam em esquadrões, com cartazes e fotos de nossa foragida princesa aparvalhada. Era uma madrugada fria de agosto e ,como minha mãe não conseguia parar de chorar, pensando nas coisas horríveis que poderiam acontecer com nossa filhota de Pastor Islandês fora da proteção famigliar, meu pai resolver fazer uma busca noturna. Minha avó acordou às duas da manhã com a movimentação e, mesmo incapacitada pela surdez de escutar uma palavra do que se sussurrava na casa para não acordar geral, em menos de dois minutos a fofa estava pronta e coando um café. Meu pai não queria que ela fosse, mas como ele era um genrinho de última categoria e sabia perfeitamente qual era seu lugar naquela hierarquia matriacal, abriu a porta de trás do opalão completamente resignado pra véia entrar. Ela foi a primeira a localizar um cão nosso no meio do mato, no meio da roça. Era o Povo. A gente não procurava o Povo: o Povo é safo, sabe fugir e voltar. Há uma terrível teoria da conspiração que roga que ele talvez tenha induzido a Radija ao erro, estimulando-a a fugir só para que ela se perdesse no mato e nunca mais voltasse, o que garantiria nosso afeto só pra ele pro resto da vida -- mas eu acho improvável que isto tenha se passado pela cabeça de meu galgo mulato, até porque ele tem uma cabeça pequeninha demais pra permitir a entrada de ruindade

Pois vovó viu o Povo e fez meu pai parar o carro. Minha mãe se embrenhou no mato, na esperança de que o galgo estivesse fazendo ele mesmo suas buscas noturnas atrás da irmã, mas tudo o que encontramos foi um coleguinha seu de reviração de latas, que preferiu não pegar carona com a gente. Minha avó estava exultante com a "recuperação" do Povo (ou a volta dos que não foram); minha mãe chorava; e meu pai tentava explicar: Dona Izolina, a gente não está procurando o Povo, ele sai de casa mas sabe voltar, a gente está procurando a Radija. Descobrimos dias depois, muito depois do retorno da Princesa, que a felicidade da minha vó não era por termos recuperado um cão que não estava perdido, mas sim por o termos flagrado com um amiguinho macho, no meio do mato, na calada da madrugada: Boa coisa, ele não devia estar fazendo! E foi aí que descobrimos que minha avó tinha uma implicância visceral com o Poveretto Povo, só porque o galgo tinha uma tara irrefreável por seus cambitos. Na verdade, acho que ele tinha tesão era na meia que ela usava. A recíproca, infelizmente, não era verdadeira. Quando minha vó rezou pra galgo sumir, ela deve ter trocado as bolas, e aí sumiu a Radija. Sorte que a véia doida percebeu a mancada e rezou de novo pra Radija voltar. Ela voltou, e fomos felizes para sempre.


Bença, vó. Boa noite, meu docinho de coco com beijinho doce, que foi ele quem trouxe de longe pra mim.