Este é o meu quartinho de bagunça. Da embalagem vazia de Chokito ao último livro do Saramago que eu não terminei de ler, você encontrará aqui de tudo um pouco.

quarta-feira, junho 25, 2008

É normal ser diferente (ou Mais um Conto da Carochinha)

Minha mãe sempre foi muito ocupada: quando se tem vinte e poucos anos, 2 empregos, 3 filhos e dificuldades para encontrar uma babá que não falte na segunda-feira, tempo é coisa que não existe. Pra poder ir ao banheiro e eventualmente tomar banho, dormir e comer, minha mãe se habituou a inscrever seus 3 filhos em cursos livres. Todos começamos a ter atividades extra-classe pelo menos 2 anos antes de iniciar a escola, porque naquela época não existia o pré-pré-jardim I, ou seja: escola antes da classe de alfabetização era creche mesmo, e filho da minha mãe não ia pra creche pra pegar piolho. A gente pegava piolho em outros lugares.

Um desses lugares foi a escolinha de artes. Em Brasília, tinha uma muito boa que levou meu irmão ao prêmio internacional de melhor desenho infantil em sua faixa etária, aos 7 anos, mas como o prêmio seria entregue na comunista Tchecoslováquia, e como naquela época comunista comia criancinha, aprendemos desde cedo a desdenhar de prêmios internacionais importantíssimos, o que nos transformou em seres humanos diferentes, pra não dizer anormais.

Aí, quando viemos pro Rio, minha mãe buscou no catálogo o telefone da Escolinha de Artes do Brasil, que seria o melhor equivalente da escolinha de artes bacanérrima que frequentávamos no Distrito Federal. Pra agradável surpresa logística de todos, essa escolinha era ao lado de nossa casa, então eu e minha irmã fomos matriculadas imediatamente, em janeiro; meu irmão, o mais velho, ficou de fora porque ele preferia fazer música e os horários eram incompatíveis. Como minha mãe era muito ocupada, acabou indo à nova escola de artes pela primeira vez numa festa junina para a qual nos vestiu a caráter. Chegando lá, entre obras de arte inacabadas em argila e uma mesa de comes e bebes, minha mãe não pôde deixar de reparar que eu e minha irmã erámos as únicas crianças, how can I put this?, não especiais da escolinha inteira. Ela nos chamou de lado e perguntou: quem são seus coleguinhas? Aí nós fomos apontando, empolgadíssimas, um por um: nosso amiguinho Down vestido de caipira ali, uma moça de 20 anos vestida de branca de neve acolá, até apresentar a turma toda. Como minha mãe é formada em matemática, ela também não pôde deixar de calcular que nós duas, suas filhas, correspondíamos a 25% do corpo discente e, portanto, 75% dos alunos eram especiais. Ela teve muita vontade de perguntar pra professora se tinha nos inscrito na turma certa, se não existia uma outra turma, como dizer isso?, que fosse mais a nossa cara. Por ser jovem e talvez insegura, acho que ficou com muito medo de ouvir da professora a verdade: que as crianças especiais eram muito melhores que a gente no massacre de massinhas e quetais, e que nós estávamos sim, na turma certa.

Acho que nenhuma mãe está preparada pra descobrir que seus filhos não são assim, tão-tão-tão especiais quanto elas imaginam desde a concepção. Na verdade, acredito que eu e minha irmã só adquirimos consciência de que nossos colegas do curso de artes tinham um cromossomo a mais anos mais tarde, nas aulas de genética do que hoje chamam de ensino médio, e mesmo assim porque as síndromes cromossomiais costumam ter o infeliz aval do professor para que os alunos se exibam com seu festival de piadas de mau gosto.

Quando eu penso nas tardes na escolinha de artes, é claro que me ressinto de ter uma vez apanhado de uma coleguinha especial quando tentei pegar o crayon rosa que ela nem estava usando, mas nunca me ocorreu que ela pudesse ter me sentado a mão por ser diferente de mim, pelo contrário: tínhamos até as mesmas predileções por cores, e é salutar brigar pelo que se quer.

Eu sei que, no ano seguinte, nós não tivemos mais aula naquela escolinha de artes. Em vez disso, fizemos ginástica olímpica, hipismo, violão, gaita, natação, capoeira, canto e inglês - não ao mesmo tempo, mas em todo o tempo que tínhamos livre. Minha mãe usava um jargão psicanalítico pra se queixar de nós que representava perfeitamente a dinâmica familiar dessa época: "se eu paro, eu penso; se eu penso, enlouqueço!" Para evitar que ficássemos loucos, ela nos deixou sem tempo, e portanto, sem tempo pra parar, pensar como as outras crianças e adoecer das mesmas desordens mentais, nesta ordem. Adoecemos, claro, mas de outras neuroses. O preconceito nunca foi uma delas.

Anos mais tarde, quando eu tinha 15 e minha irmã 13 anos, voltamos a ter aulas de artes plásticas num curso livre em meu condomínio. Como nossa sina nas artes sempre foi ser diferente, éramos as únicas crianças num grupo de terceira idade. Teve muito aluno se questionando se não haveria -- "tipo assim, professor, sem ofensas, adoro crianças!" -- um horário mais adequado a uma pessoa de sua madura idade. A evasão foi geral e eu e minha irmã levamos o professor de artes à falência por falta de quórum, mas isto só ocorreu porque as pessoas não estão prontas para admitir os diferentes. Isto sempre foi muito desagradável e desastroso em toda a História da Humanidade.

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