Este é o meu quartinho de bagunça. Da embalagem vazia de Chokito ao último livro do Saramago que eu não terminei de ler, você encontrará aqui de tudo um pouco.

terça-feira, agosto 05, 2008

Free Sonya Ornella!

Que porcaria é essa?!?

Tudo bem que eu já falei muito mal de americano nesta vida. Em épocas mais ou menos revoltadas, cuspi em letreiro de Mc Donald's, atravessei rua pra não pisar em quarteirão de consulado ianque, reciclei todos os livros que comprei na Barnes & Noble e até já odiei um escritor brasileiro ou outro pelo emprego insistente de anglicanismos em suas obras. Recentemente, quem diria, apesar do Bush e apesar do roubo dos notebooks da Petrobrás por espiões industriais vocês sabem de onde, eu engoli a vontade de rir do Tio Sam atravessando o samba e renovei meu visto para poder passar as férias deste ano no país binômio Osama-Obama. O país é grande, é lindo, e nem todo ele merece o Bush que tem.

Não bastassem os dois meses e meio de antecipação + a módica quantia de R$253,50 que a aventura do visto exigem, eu ainda passei um tempão aperreada com a angústia de ter falado tão mal dos EUA pela internet, mas tão mal!, que o gúgol pudesse me rotular, embrulhar e despachar como persona non grata nesse país para todo o sempre. Nunca, em toda a minha vida, eu fui barrada em festa. Deve dar um desgosto infinito tremendo ser barrado em porta de país ou em porta de consulado, e minha angústia era tão grande, mas tão grande!, que eu já fui pra entrevista no consulado em clima de “ande, homem, me barre logo é aqui, que eu não quero ser barrada em Houston, se não nós will have é problem, heim”!

Passei os quase três meses entre o agendamento e a entrevista do visto examinando minha consciência, dizendo pra mim mesma coisas como “não, você não é terrorista só porque torce pelo Michael Moore” ou “tudo bem odiar o Bush, o mundo inteiro odeia o Bush, é bom odiar o Bush”. E quando eu obtive o visto, não pude deixar de pensar na coisa mais óbvia: eles estão me testando só pra ver até onde eu vou. Eles querem saber se, pelo simples fato de ter um visto, eu vou fazer essa maluquice de ir até lá. E se eu for até lá, eles vão me colocar numa sala e vão me fazer passar as férias numa sala hermética, incomunicável, examinando novamente minha consciência até que eu confesse que sou terrorista. Ué, mas eu não sou terrorista. Ou sou? Fiquei confusa. Saí daquele solo norte-americano em minha própria cidade, onde, apesar de tudo há praias e pôres-do-sol que nada têm a ver com Bin Laden, pagando a maluca geral.

Naquele dia, eu achei que estivesse ficando maluca, mas agora eu pirei de fato! Na segunda passada, comprei passagens pros EUA e, poucos dias depois do leite derramado, li no jornal que otoridades ianques poderão reter nos aeroportos tudo e qualquer coisa que armazene dados, de qualquer pessoa, por tempo indeterminado, a título de combater o terror. Aí eu fiquei aterrorizada: será que eles vão suspeitar de laptops vermelhos e tesudos, assim, como a Sonya? A Sonya, coitada, é uma boa moça, uma boa computadora, nunca fez mal a ninguém, nunca viu programa pirata, chega até a ser ingênua em comparação aos computadores domésticos brasileiros. Eu e ela nunca passamos um mês longe uma da outra, mas e se ela for capturada pelos malucos do contra-terrorismo? E se eles acharem ruim que eu tenha centenas de textos que falam de pouco a muito mal dos Estados Unidos?

Consultei meus universitários e eles foram unânimes: não traga a Sonya. É muito perigoso, vocês podem se separar por muitos e muitos meses, ela pode nunca mais ser a mesma pessoa depois dos interrogatórios. Fiquei em estado de choque. Esses psicopatas podem até causar algum dano irreversível ao HD da minha amiga, ó céus, eu odeio esses psicopatas contra-terroristas, eles são os terroristas que estão procurando, são eles, são eles! Chamem Machado de Assis, o alienista está à solta!!!

Resolvi deixar a Sonya. Eu, que já tinha prometido que visitaríamos todos os hot spots da Starbucks, que navegaríamos num café na calçada sem medo de pivete, tive de voltar atrás. Consegui convencê-la de que nossos pivetes nem são tão ruins assim. Alguns são até carinhosos. Ela ficou corada de tristeza, claro, mas fazer o quê? Vou ter de me divertir nessas férias sem ela. Vou ter de escrever meus projetos num teclado sem acento. Vou ter de fazer upload de centenas de Mega antes da viagem. Vou ter de torcer pra não me tomarem o pendrive no aeroporto, mas se tomarem, vou levantar um finger mentalmente dizendo que já subi a porra toda, tá na rede, malandro. Vou ter de torcer pra que um terrorista não tome meu avião. Ou melhor: na atual conjuntura, nêgo, vou ter de torcer pelo terrorista!

Esta viagem ficará marcada como a viagem que mais me aborreceu antes da partida. Preparar uma viagem, pra mim, que não sou terrorista, contrabandista nem nada, é sempre um prazer. Engraçado: isso de me aborrecer com os preparativos realmente nunca tinha me acontecido antes. A gente tem que reconhecer, isso é um mérito deles: tem sempre um imbecil norte-americano pra criar um tipo inédito de mal-estar. Clap, clap, clap.

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