Este é o meu quartinho de bagunça. Da embalagem vazia de Chokito ao último livro do Saramago que eu não terminei de ler, você encontrará aqui de tudo um pouco.

sábado, setembro 13, 2008

Desastres pentelhatórios

Hoje eu estava falando com meus pais sobre essa luta incansável das mulheres contra a natureza: estamos constantemente envolvidas em limpezas de pele, exfoliações, hidratações e tratamentos contra a celulite, fios brancos e rugas, mesmo que as rugas, em alguns casos, sejam apenas vincos naturais na pele causados pela movimentação saudável de nossas articulações quando perfeitas.

Pois meu pai falava disso enquanto eu ia me lembrando que uma das primeiras questões existenciais profundas que eu levei à psicanálise foi a minha dificuldade de encarar a velhice. Acho que eu tinha 18 ou 19 anos quando notei minha primeira ruga. Minha analista foi franquíssima:
- Você só pode estar de sacanagem!
- Não, é serio: quando eu sorrio, aparece uma ruga aqui, ó, bem embaixo dos olhos.
- Mas isso é porque você sorri! Todo mundo que sorri tem isso.
- Ah, então você está me dizendo que se eu não quiser envelhecer eu tenho que ficar deprimida para parar de sorrir!

Em algum momento, acho que todos os meus psicanalistas desistiram de me analisar por causa de comentários como esse.

Um complexo que eu nunca tive, porém, foi o complexo de mata equatorial nos países baixos. Aprendi a me depilar sozinha com 14 anos e, naquela época, a depilação com cera era coisa para esteticista com pHD em Harvard: um troço caríssimo! Determinada a não depender nunca mais de uma esteticista mercenária, aprendi rapidamente a fazer cêra de açucar e mel na panela, mas confesso que no começo errei muito o ponto do melado. Teve uma vez que eu deixei a cêra muito líquida, e aí fiquei grudada no assento da privada por quase uma hora, até que eu conseguisse dissolver o melado com a aguinha vocês imaginem de onde. Numa outra vez, porque eu superaqueci a cêra no microondas, não aguentei segurar o quentume do pote de cerâmica e acabei derramando aquela lava incandescente sobre a minha barriga e coxa, provocando queimaduras de segundo grau super sofridas. Já senti muita dor em nome da beleza, mas nenhuma dor estética se compara à dor causada por procedimentos que se destinem à eliminação de pêlos e pentelhos. Quem aqui faz ou já fez depilação a laser sabe do que estou falando.

***
Desafortunado pentelho

Não sei porque odiamos tanto nossos pentelhos, só sei que temos por hábito arrancá-los a ferro e fogo. Talvez por isso, sejamos tão intimamente associadas no exterior a uma técnica radical de remoção de pêlos pubianos (e adjacências) chamada de Brazilian Waxing. Alguns acham lindo, eu acho estranho.

Tenho amigas que já fizeram depilação em formato de borboleta, sol e coração; algumas, num rompante ufanista sem precedentes históricos, pintaram seus pêlos pubianos com as cores do Brasil para disputar o marido com a televisão na época da Copa do Japão; mas a única criatura que eu conheço que já admitiu ter tirado tudo, tudão, como no Brazilian Waxing, arrependeu-se amargamente da aventura porque flagrou o marido chorando um dia na cama:
- Por que choras, mi vida?
- Porque você está doente e eu não sei o que farei quando você se for.
- Mas, mi vida, eu não vou a lugar algum! O que te faz achar que eu estou doente?
- A sua xereca (soluços): ela está completamente careca!
- Ah, mas isto é porque eu depilei. Escuta, mi vida, isso era pra ser uma surpresa boa pra você. Assim, sabe?, uma novidade.
- Buáááááa'. Mas eu (soluço) fiquei (soluço) deprimido. Buáááááaá.

Desde que me contaram esse relato tão trágico e sincero, eu nunca me pelei além dos acidentes depilatórios. Alguns acidentes depilatórios resultam em muito (mas muuuuuito, gente!) menos pêlo do que o esperado. Quando dá pra ver que a coisa ficou ruim, a gente até tenta um milagre da multiplicação puxando uma franja daqui e fazendo um repartido de lá, mas se o desastre depilatório é grave, só ativando um mês inteiro de ausência mental: está provado cientificamente que se a gente se aborrece, aí mesmo é que o cabelo não cresce.

Uma amiga muito querida sofreu uma outra variedade de desastre pentelhatório: estava ela passando blondor no corpo sob o sol, quando percebeu que o descolorante tinha escorrido pra dentro de seu biquini. Flagrei-a examinando as coisas no deck da piscina, e ela me olhou assustada:
- Ó céus, estou ruiva! E agora?
- Calma, amiga. Vamos aparar as pontas. Às vezes, só de tirar as pontinhas a cor volta a ter o viço de antes.

Ela foi pro banheiro e aparou as pontas dos pentelhos com o trimmer do marido. Voltou de lá desolada:
- Putz. Agora estou ruiva e com um corte militar cafonérrimo.
- Caramba, foi mal. Agora vamos torcer pro seu marido ser distraído.

Quando ele voltou de viagem, antes de matarem as saudades, até por causa do relato da coisa pelada que brochou o marido da outra, ela apressou-se em contar:
- Tenho uma surpresa pra você.
- Oba!
- Estou com a xereca ruiva.
- Oba!
- Mas vá com cuidado, porque eu também estou com um corte de pentelho novo que pode te espetar.
- Ih. Então acho melhor a gente ver isso com calma amanhã.

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