Este é o meu quartinho de bagunça. Da embalagem vazia de Chokito ao último livro do Saramago que eu não terminei de ler, você encontrará aqui de tudo um pouco.

sábado, setembro 20, 2008

O casamento de Rodrigo Mannarino

Ele era o presidente da comissão de formatura da minha turma, e eu era a líder do grupo do contra: eu era contra os convites caríssimos de veludo, contra o Le Buffet, contra as cascatas de camarão, enfim, eu era uma péla-saco destinada a abandonar o grupo de formandos no altar e passar um carnaval inesquecível em Garopaba com a grana que eu apliquei por 5 anos na conta-poupança da festa de formatura.

É bem verdade que ele aprendeu muito comigo nesses cinco anos de organização de uma festa pomposa. Aprendeu a não se aborrecer muito e aprendeu a ter paciência, sobretudo com as mulheres, e isto foi muito útil quando ele começou a organizar a festa de seu casamento. Melhor dizendo, quando ele começou a contratar uma verdadeira força-tarefa para organizar seu casamento. "Uma luta!", ele me confidenciou durante a anestesia que fez para a limpeza de tártaro do Povo: de um lado da arena, a mulher dele, uma noiva, imaginem só!; do outro, um desfile de viados e fadinhas afetadas que insistiam em dizer que está se usando muito esse tipo de flor, que esse docinho é o que mais sai em festa de casamento, e toda sorte de argumento fashionista fraco pra destruir tudo aquilo que a noiva idealizou desde sempre para seu próprio casamento.

Mas o Rodrigo tinha a experiência da diplomacia e, com ela, eles se defenderam bem. O resultado de tanta luta, vitoriosa para os noivos, é a festa que se realizará hoje nos cenários mais bonitos desta cidade. Ela terá o perfume tranqüilo que só têm as festas organizadas com a antecipação necessária. Num dia assim, é muito justo que os noivos só pensem em ficar lindos para o momento do sim, porque é com essa cara que eles sairão na fotografia que mostrarão aos filhos, que mostrarão aos netos, que mostrarão aos bisnetos: Olha como sua bisa estava linda no dia do casamento! Naquela época, existia uma igrejinha bastante simpática naquela colina da Glória onde hoje tem um assentamento dos Sem Teto. E os bisnetinhos vão suspirar por um tempo em que eles podiam sair à rua sem roupa blindada pra se proteger das balas perdidas.

Recebi em casa um convite super elegante, do tipo que só pode ter sido o resultado de muitas discussões sobre papéis, letras e o sexo dos anjos. A coisa mais bonita, no entanto, foi o que ele escreveu com a própria letra de médico, no envelope: "Minha querida amiga, aguardamos sua presença e sua alegria!" E a alegria está pulando no meu peito, porque até que enfim eu vou a uma festa do Rodrigo, e eu não podia estar mais empolgada! Acho que nunca fui a uma festa organizada com tanta antecipação: os noivos sabiam que subiriam ao altar no Outeiro da Glória há quase dois anos. Sinceramente, um namoro que de dois anos pra mim já é um excelente placar. Poucas vezes suportei alguém por tanto tempo ao meu lado. Essa certeza de ter encontrado a pessoa certa, essa convicção de que dois anos são apenas um breve suspiro numa história muito mais longa, longa a perder de vista, esse amor sólido e tão raro hoje em dia, isto sim, merece toda a pompa e celebração. Quando existe essa certeza serena, dois anos representam apenas o tempo justo e necessário para que todos os detalhes sejam providenciados a contento.

Ao meu querido amigo, Rodrigo Mannarino, anestesista dos meus bichos e salvador da minha pátria em tantos momentos de angústia e desespero, o veterinário que domou a morte e aprendeu a enfrentá-la com uma calma que não existe no meu coração, desejo que o tempo preserve para sempre em sua alma a alegria deste dia.

PS: meus peludos, Povo e Radija, não poderão comparecer porque estão muito ocupados com uma nova família de gambás que se mudou para nosso telhado em Miguel Pereira, mas eles me pediram para transmitir suas mais sinceras lambidas.

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