Este é o meu quartinho de bagunça. Da embalagem vazia de Chokito ao último livro do Saramago que eu não terminei de ler, você encontrará aqui de tudo um pouco.

terça-feira, setembro 16, 2008

Uma semana depois das férias

OK, admito que já tive tempo suficiente para perceber que não é desta vez que o choque de realidade vai me matar. Todo ano, quando volto das férias, acho que não vou suportar o retorno à rotina (depois de um mês sem trabalhar, o corpo se acostuma à vida mansa); que vou ficar asfixiada com o dia de apenas 16 horas (não sei o que acontece, mas o dia só tem 24h quando estou de férias, época em que subitamente eu ganho tempo para dormir); que vou morrer de saudades da vida boa que eu recém descobri e recém abandonei no rastro do eterno retorno.

Ainda tenho saudades das férias do ano passado, e isso vai se misturando com as saudades destas férias e de todas as férias que eu já tive na vida, inclusive os verões passados em Piúma (ES) na minha infância.

Lembro de um desses verões em que chegamos à pequena vila de pescadores numa Caravan branca atrelada num trailer, e todas as crianças do lugar correram atrás da gente gritando "Chegou o circo, chegou o circo!". E o circo éramos nós.

Lembro de minha mãe chorando quando um menino que vendia peixe na praia perguntou pra ela o que era aquilo (a máquina fotográfica), e ela explicou, mostrou uma foto pra ele, e ele grudou na gente até o anoitecer, pedindo pra minha mãe tirar uma foto dele pra ele levar pra mãe. Ela tirou várias, mas ele não entendia que o filme tinha que acabar, que minha mãe tinha que chegar na civilização mais próxima e mandar revelar o filme, e só uma semana depois (que naquela época demorava), ela teria a fotografia em papel nas mãos. E o menino chorava, achando que minha mãe estava mentindo pra ele, e minha mãe chorava da inocência do menino, e todo mundo chorava porque minha mãe chorava, e eu tinha só nove anos, portanto tinha legitimidade pra sugerir que ela adotasse aquele menino e pronto, aí a gente o levaria pro Rio e ele teria todas as fotografias que quisesse.

Mas no dia seguinte, dia de maré baixíssima em Piúma, a meninada toda já tinha se esquecido do menino da fotografia e só queria saber de procurar cavalos-marinhos e estrelas-do-mar.

Tenho saudades das férias em que a gente era o circo e eu me sentia a malabarista, a dançarina, a palhaça, a onça pintada e a criança com pipoca no camarote imaginário, separado do resto da platéia apenas por uma fita de cetim dourado. Férias sempre tiveram esse cheiro de purpurina no ar.

Ah, eu sou uma pessoa que sente saudades e pronto! Saudades das férias da semana passada, de todas as férias, de tudo, de todos, sempre.

PS: saudades da minha irmã e do Ken.

PS2: talvez eu tenha férias todos os dias, no instante em que fecho os olhos e desato a sonhar, ou ainda quando mergulho num livro bom (aí invado o sonho fantástico de outrem), mas isso não é a mesma coisa que a coisa de fato, gente. Não é!

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