Este é o meu quartinho de bagunça. Da embalagem vazia de Chokito ao último livro do Saramago que eu não terminei de ler, você encontrará aqui de tudo um pouco.

segunda-feira, novembro 03, 2008

Vírgula, ect.

Hoje fui ao Rio Sul para passar um sedex que acabou se tornando a carta mais cara de toda a minha vida. Esperei 5 minutos na fila, me distraí vendo um bebê fazer gracinhas no colo da mãe, entreguei minha carta, dei uma nota de R$50, recebi umas moedas de troco e, distraidamente, coloquei-as na bolsa. Antes de precisar abrir minha carteira novamente, Tico fez sinapse com Teco e, de repente, ocorreu-me que aquele troco estava errado. Se eu dei R$50, o sedex tinha custado R$15,50, então eu deveria ter recebido R$34,50 de troco, e não apenas R$4,50!

Primeiro eu senti muita raiva de mim por minha distração. Meu superego maldito tinha até ordenado que eu me cortasse imediatamente os pulsos e a cabeça, mas logo veio a fase de negaçãonão, gente, não é possível, esse troco está aqui, eu vou encontrar! –, e eu aterrorizei todas as pessoas que passavam pelo corredor de alimentação do shopping enquanto esvaziava freneticamente minha bolsa sobre uma mesa para tentar encontrar o troco perdido. Aliás, seria fácil achar o troco perdido na minha bolsa, porque tudo o que eu tinha na carteira antes do sedex era uma nota de R$50, e agora havia R$4,50 em moedas, formando um desolador deserto monetário no qual um cego-maneta facilmente identificaria uma nota rota de R$1 - se ela ali estivesse. Mas nada: o troco não estava ali. Eu realmente tinha mandado uma carta de R$45,50. Mais um pouco e eu poderia ter ido à Sampa para entregar a carta pessoalmente. Superado o estado de choque, enchi-me de coragem e voltei à agência do correio.

Não havia fila, então eu fui direto à mocinha que me atendeu e pigarrei, numa débil tentativa de eliminar os agudos histéricos que pulam involuntariamente da garganta das mulheres desesperadas:

- Oi, você se lembra de mim?

- Vagamente.

Vagamente...”, eu pensei, “É isso que eu falo pra alguém que venha me cantar nesses termos.” Mas não desanimei, afinal aquilo ali não era uma paquera, e sim uma questão de troco e honra!

- Eu estive aquiexatos (consulta o recibo do sedex)... 12 minutos, e mandei um sedex pra São Paulo. Custou R$15,50 e eu recebi R$4,50 de troco, lembra? Você até pediu pra caixa ao lado lhe fazer troco, porque você não tinha.

- Ah, acho que sei, sim... uma carta verde, né? Tou lembrando... acho que te dei R$4,50 de troco, sim.

- Pois é, eu me dei contapoucos minutos de que você me deu troco para R$20. Na verdade, você deve ter se confundido, pois eu paguei com uma nota de R$50 e não com uma de 20, de forma que ficaram faltando R$30. Será que você pode verificar seu caixa? Não devem ter passado muitas pessoas por aqui depois de mim, e se você encontrar a diferença, poderá me devolver o restante do troco.

- Ah, sinto muito. Não tenho como te dar R$30 porque você acha que me pagou com R$50, e não com R$20. Pra mim, você pagou com uma nota de R$20!

- é que está: eu não tenho certeza de muitas coisas, mas disso eu tenho. Eu tinha esse dinheiro na carteira. Estava sem nada antes de sacar essa nota de R$50 com que lhe paguei. Aliás, é por isso que estou super triste: porque essa era toda a grana que eu tinha, e agora não tenho mais. Você pode verificar se há essa diferença de R$30 no seu caixa? Por favor?


Ela hesitou, eu vi. Eu podia ouvir sua dúvida, eu podia ver sua indignação se derretendo - ora, onde já se viu, que audácia dizer que eu errei o troco! -, e consegui perceber o momento exato em que ela pensou: "Mas será que ela está desconfiada de mim?!?". E então deu-se o milagre, a coisa que a gente não espera, uma mistura inexata de compaixão com ética, e ela disse:

- Olha, faz o seguinte: a gente checa o caixa às 19h. Fique aqui até as 19h que, se tiver R$30 a mais, eu te dou, porque estará provado que é teu mesmo.

Agradeci e expliquei que, por mais que eu precisasse daquele dinheiro, não poderia ficar plantada ao lado do caixa da ECT por duas horas, até a "hora da verdade". Deixei meus telefones para ela me ligar caso notasse que me deu R$30 a menos e, no momento em que atravessei o pequeno papel com meus números por cima do anteparo de vidro do balcão, segurei-lhe as duas mãos e disse:

- Obrigada por me deixar acreditar. Mesmo que você não me telefone mais tarde, você acaba de me dar a esperança de que aindagente boa e honesta que, em posse de bem que não lhe pertença, é capaz de procurar o dono para a justa devolução. Por essa pequena esperança, que pode ter a duração efêmera de duas horas, eu sinto que lhe devo gratidão.

E assim, afastei-me da cabine dos correios chorando, porque as pessoas ridículas choram por 1, por 2 e por 30 reais, mas choram ainda mais quando o que está em jogo transcende muito, mas muito mesmo, todas as coisas materiais.



PS: até as 19h32, ela ainda não tinha telefonado. Ainda acho muito cedo pra matar uma esperança tão bonita.

PS2: às 20h eu não aguentei a pressão existencial da dicotomia "mundo bão-mundo cão" e telefonei: meu troco estava lá! Amanhã poderei resgatar a minha fé parcial na humanidade (porque, pra ser total, essa boa notícia tinha de ter chegado mais cedo, mesmo levando-se em consideração que errar - troco, inclusive - é humano).

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