Este é o meu quartinho de bagunça. Da embalagem vazia de Chokito ao último livro do Saramago que eu não terminei de ler, você encontrará aqui de tudo um pouco.

segunda-feira, maio 11, 2009

Emboscada

Há uns dias que sinto a depressão me rondando, escancarando suas presas em minha direção, abafando os ruídos do mundo com o som de sua própria respiração de felino feroz, sugando todo o oxigênio do meu ar. Eu fico enroscada num canto bem quieta, na esperança de que ela não me veja, de que ela não me ataque, de que ela finalmente se canse, desista e vá embora atrás de outra caça, de outra alma penada.

O relógio range o arrastar dos segundos, dos minutos e dos dias, e eu sei que, enquanto espero, o tempo está passando, e o tempo perdido agora não será recuperado jamais. Então eu fecho olhos pra enxergar melhor essa fera de pele macia que eu conheço tão bem, que me conhece tão bem, e chego mesmo a me deleitar com as memórias táteis de seu pelame sedoso, de seu calor frio, de seu abraço infinito que torna todas as dúvidas existenciais numa só certeza, a certeza de que só ela sabe, só ela tem a resposta, só ela encerra todas as dúvidas. A depressão é uma fera onipotente, e é quase impossível não idolatrá-la quando o cerco se aperta. É quase impossível não torcer pra que ela vença, porque ela é linda, ela sabe se mover, ela sabe a hora de chegar. Ao contrário de mim, ela sabe. Simplesmente sabe.

É uma emboscada, não tenho a menor dúvida. Estou completamente desarmada, nem um estilingue tenho pra me defender. Da parede do quarto, ouço o relógio arrastar sua montanha de segundos, seu enxame de dias e sua constelação de anos. Não quero lutar. É inútil lutar.

Só queria que o tempo parasse enquanto sucumbo, porque pode ser que um dia eu precise desse tempo. (talvez se eu ficar bem quieta, bem imóvel, ela desista de mim)

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