Este é o meu quartinho de bagunça. Da embalagem vazia de Chokito ao último livro do Saramago que eu não terminei de ler, você encontrará aqui de tudo um pouco.

terça-feira, maio 05, 2009

Rotina de uma mulher

Ela se olha no espelho, arruma o cabelo pela centésima vez, retoca o batom, lembra de passar perfume!, lembra de levar um casaquinho, esquece de alguma coisa e entra no elevador. Pega seu carro, entra num táxi, entra no carro dele, sobe na bicicleta, espera 15 minutos, morre de raiva, o faz esperar 15 minutos, pede desculpas, morre de vergonha e muda de assunto: pra onde vamos, então?

Senta na mesa, pede um chope, ri de um piada, não come porque está gorda, não come porque parou de comer carne, não come porque já jantou ou come porque está roxa de fome, porque não pode beber sem comer, porque comer é a melhor coisa do mundo, e ri de outra piada, conta uma ainda melhor, chora de uma história triste que acabou de lembrar, muda de assunto, pergunta se a maquiagem borrou, pede um cosmopolitan, pede uma caipiroska de morango, uma de kiwi, uma de abacaxi, uma de tangerina, desce outra sangria, capricha no mojito, capricha no martini de lichia, mas onde é que eu estava mesmo? Ah, falando do meu ex-namorado! De repente acha o cara ali, na sua frente, irresistivelmente bonito naquela camisa vermelha, naquela camisa listrada, naquela camisa amarela, naquele macacão jeans, naquele black jeans rasgado, naquela camisa de linho com aquela sandália de couro. Talvez ele seja tão charmoso porque é alto demais, ou baixinho, ou porque tem cara de cachorrinho, ou porque é careca, ou narigudo, ou tímido, ou desgrenhado, ou desligado, ou inteligente, ou cabeludo, ou porque tem um ar blasé, ou porque escreve poesia, ou porque toca violão, ou porque toca bateria, ou porque toca piano, ou porque toca baixo ou porque tem uma banda chamada Juke Box que faz sucesso na Bahia. Onde é que eu estava mesmo? Fiquei olhando tanto pra você que perdi o fio da meada. Risos, mãos, olhares, pernas por baixo da mesa, corpos se querendo, corpos se comportando, corpos se comportando muito mal em público. Uma pausa pra ir ao ladies' uma, duas, três, cinco vezes, e se eu precisar ir de novo, que seja em casa, acho que já bebi demais, acho que já saí demais, acho que já gostei demais, acho que quebrei a cara demais.

Foi bom conhecer você, como eu faço pra te ver de novo, amanhã vai fazer o quê?, te ligo amanhã, a gente se vê, a gente se fala, a gente não se fala, melhor a gente não se ver mais, eu ainda gosto de outra pessoa, eu ainda estou com outra pessoa, eu gostei de você e queria te ver mesmo assim, quero ser seu amigo, acho que podemos ser amigos, acho que podemos curtir, acho que você é a mulher da minha vida, não sei o que quero da vida, me diz o que eu devo fazer!

Chega em casa, lava o rosto, se gosta no espelho, escova os dentes, sente amor-próprio, sente alegria, joga no cesto a roupa impregnada do cigarro dos outros, sente nojo, sente um vazio, sente cansaço, procura seu amor próprio no cesto e não encontra, vai se deitar. Amanhã começa tudo de novo: um novo rosto, um novo discurso, uma nova abordagem, mas tudo enfadonhamente velho, tudo insuportavelmente igual.

- Me vê o de sempre, Sam.
- É pra já!

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