Este é o meu quartinho de bagunça. Da embalagem vazia de Chokito ao último livro do Saramago que eu não terminei de ler, você encontrará aqui de tudo um pouco.

quarta-feira, maio 13, 2009

Profissão: atriz (ou "In her shoes")

Arrumei um novo brinquedo no meio dessa angustiante vontade de trocar de vida: o fingimento.

Eu posso não ter feito Tablado nem ter passado meus verões adolescentes mergulhando no teatro da C.A.L., mas - ainda assim -, eu sempre me senti um pouco atriz. Uma grossa veia dramática sempre latejou em minh'alma e, talvez por isso, toda vez que eu chorava copiosamente por alguma coisa semi-importante que eu certamente esqueceria dentro de cinco minutos, eu aproveitava o efêmero derramamento caudaloso de lágrimas para verificar, na frente do espelho, como eu ficava chorando (e então estudar o meu melhor ângulo pra esse tipo de cena). Depois de décadas de laboratório, percebi que chorar não favorece minha beleza tanto assim, e por isso eu tenho evitado chorar na frente de homens solteiros interessantes e potencialmente viáveis, porque se não está fácil pra ninguém, a coisa fica ainda pior quando a gente enfeia.

Então eu decidi ontem que ia fingir ser outra pessoa. Ou melhor: que ia fingir ser eu mesma, mas sendo outra pessoa. Uma pessoa inédita e deslumbrada, recém chegada à minha vida e 100% entusiasmada com tudo aquilo de que eu abriria mão sem piscar pra ter uma outra vida, completamente diferente. Pra ser camareira num transatlântico. Ou pra ser correspondente de turismo no Cazaquistão.

Não sei se vocês estão me acompanhando quando eu digo que queria fingir ser eu mesma na pele de outra pessoa. Confesso que eu mesma fiquei um pouco zonza quando tive esses pensamentos espiralados às seis da manhã de ontem, mas na verdade o brinquedo era simples: eu faria o papel de mim mesma, só que essa nova "eu" acharia o máximo ser... bem, eu. Expliquei para minha aspirante ao estrelato seu novo papel:

É muito simples, baby. Você será Vanessa Ornella, uma veterinária carioca bonita, gostosa e famosérrima (mas só entre os seus); funcionária pública municipal lotada no departamento de clínica médica (maneirérrimo!) do único hospital veterinário municipal do Brasil (famosérrimo e chiquerérrimo!!!); corredora perspicaz (PS: há poucos adjetivos bacanas que eu posso usar ao lado da palavra "corredora" sem mentir muito) e yogin completamente dedicada ao seu crescimento espiritual através de um esforço diário para a eliminação do ego.


Eu disse "eliminação do ego"? Desculpe, tive de retirar esse pedaço da descrição do personagem, porque na verdade o personagem não consegue ignorar que a maioria dos seres humanos normais super estupraria, roubaria e até mataria para estar em seu lugar. As pessoas mais elevadas a invejariam por seus sapatos, sobretudo porque seus sapatos - reparem bem, eu criei o personagem e não descuidei do figurino - são estes:

As confortabilíssimas Birkens de cachorrinho que a Monikita-R me mandou da Alemanha (e que podem ser encomendadas aqui), que são da cor exata do lindo uniforme-figurino de médica veterinária que não só tem um corte perfeito, do tipo que valoriza o corpo sem precisar transformar a personagem na nova morena do Tchan, como também tem os bolsos bordados com patinhas de cachorro. Um verdadeiro luxo, digno de House, E.R. e, obviamente, Scrubs (que tem as médicas mais bem vestidas e excessivamente maquiadas da TV estadunidense).

Então eu expliquei tudo pra atriz que em mim reside e dei-lhe a importante tarefa de passar um dia inteirinho na pele desse deslumbrante personagem ficcional, a Vanessa Ornella. Antes de sair de casa, ela passou uma boa metade de hora em seu camarim fazendo uma sutil maquiagem cara-lavada (pra não incorrer no erro peruístico de Scrubs e nem tampouco deixar sua Vanessa Ornella com cara de reles mortal - "Porque um bom make-up põe pra fora a diva que há em você."), alisando o cabelo no secador pra encaracolá-lo em seguida (cachos cientificamente controlados por verdadeiros milagres cosméticos) e treinando o tom certo de voz para perguntar com um sorriso casual, da porta de seu consultório: "Quem é o próximo?". Porque este é o seu gancho pra entrar em cena.

A nova Vanessa Ornella entrou em cena 22 vezes naquele dia. Quem a via ali, correndo do consultório ao laboratório, do laboratório à cirurgia, da cirurgia ao Raio X (e nunca do consultório ao crematório, o que é de se admirar num mundo cão como este), realmente acreditava que aquela mulher tinha tudo: vocação, talento e amor aos animais. Alguns atores coadjuvantes não resistiam à emoção de contracenar com tamanha virtuose e lhe estendiam oferendas: sabonetes da Natura, bombons pra esperar o almoço e até uma caixa de morangos fresquíssimos por ter dado tanta atenção assim ao Dudu, ao Roque e à Shana. A atriz aceitava tudo prontamente porque era fiel a seu público, mas não se cansava de repetir uma de suas falas modestas prediletas: "Puxa vida, mas eu não fiz mais do que minha obrigação!"

Eu realmente acho que os atores se apegam a suas falas e direcionam suas vidas a situações em que elas possam sempre ser usadas. Um exemplo desse apego aconteceu justamente em algum momento entre a cena 15 e a 20, quando a trama apresentava, no cenário da sala de espera, uma família com um gato acompanhado duma carta de outro veterinário, com carimbo e tudo, explicando que aquele era um caso óbvio de eutanásia e solicitando que o colega (no caso, nossa heróina) cometesse o ato eutanásico em seu lugar. A família humana do gato, talvez motivada pelo calvário da peregrinação a diversos veterinários num momento tão difícil desses, queria justamente pular a preliminar e obrigatória etapa do atendimento clínico para ir direto à derradeira e mais extrema etapa da eutanásia. Nessa cena, a atriz gostou particularmente dessas falas:
- Se esse gato era paciente deste veterinário e ele achava que havia indicação de eutanásia, por que não a fez?
- Ah, porque isso é coisa que ele não faz!
- Meu amigo, eutanásia não tem reversão. Eu só posso preconizar uma eutanásia se conhecer o caso profundamente e estiver convencida de que não há chance de cura ou alívio.
- Mas aqui está o laudo atestando que não há cura!
- E não posso considerar o laudo de um veterinário que se recusa a oferecer assistência ou alívio a um animal em sofrimento. Entre na fila pra ser atendido, e então eu examinarei seu caso pessoalmente para formar a minha própria opinião.

Eu leio e releio esta cena e ainda não entendo bem o porquê, mas a platéia veio abaixo e ovacionou a heroína de pé. Pra falar a verdade, nesse episódio, os morangos e os bombons vieram logo depois dessa cena. Pensando bem, depois dessa cena, 3 figurantes e 2 coadjuvantes fizeram fila nos corredores do set de filmagem para perguntar à atriz onde ele tinha comprado aqueles sapatos.

Com sapatos como aqueles, imagino, é fácil ter uma vida glamourosa e fuderosa assim.

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