Este é o meu quartinho de bagunça. Da embalagem vazia de Chokito ao último livro do Saramago que eu não terminei de ler, você encontrará aqui de tudo um pouco.

sábado, junho 20, 2009

Eu choro, tu choras, todo mundo chora

Foi difícil acordar naquela quarta-feira às 4h30. Embora eu tivesse dormido sete boas horas de sono, estava escuro e frio lá fora, e minha cama estava tão quentinha que eu chorei um pouquinho pra me levantar. "TPM", pensei. E combati meu choro fácil com músicas alegres e óleo essencial de rosa gerânio, que é muito bom pra curar choro frouxo.

O primeiro cliente no consultório me traz uma cachorrinha preta de bigodes brancos. "Qual a idade dela?", pergunto. "14 anos, doutora." Eu baixo os olhos para anotar e quando olho de volta pra minha interlocutora, uma senhorinha pequena e claudicante duns 70 anos, a encontro chorando com as mãos no rosto.
- Meu Deus, que choro é esse, o que houve?
- Doutora... é que ela tem 14 anos.... A senhora acha que ela ainda vai viver muito?

E eu, que estava com o choro frouxo, tive de ajeitar o saco, puxar um pigarro lá do fundo do peito e falar um pouco grosso com ela, pra minha voz não sair embargada:
- Ora, ora minha senhora! Bem se vê que essa mocinha tem vida boa e ainda vai viver muito por isso, sobretudo agora, que a gente vai fazer um check-up completo dela pra não deixar nada de fora. Só não quero te ver aqui daqui a 10 anos me perguntando a mesma coisa, porque aí é capaz de eu nem estar viva pra poder te responder.

Quando eu pensei que finalmente estava imune ao choro naquela quarta-feira chorosa, entra outra mulher com um cachorrinho com um ferimento na cauda. Ponho-o na mesa para examinar e acabo tendo de amordaçar o peludo, porque ele sentia tanta dor naquelas perebinhas que decidiu que não ia me deixar olhar o que estava acontecendo. Quando olho pra dona pra dizer que era só uma dermatite úmida aguda, vejo-a afogada em lágrimas. Pergunto por que ela está chorando tanto, e ela me diz, soluçando, que não suporta ver seu bicho sofrer, que ela prefiria que lhe amputassem um braço, mas que não queria ver seu bichinho sofrer, e aí eu me lembro de quando meus pais foram a Miguel Pereira buscar o Povo porque o caseiro disse que o encontrou naquela manhã com um rasgo enorme no corpo, como se tivesse sido esfaqueado, e meus pais subiram a serra em 40 minutos, quando a viagem normalmente dura 1h40, e minha mãe me ligou de lá passando mal, aos prantos, dizendo que a perna estava pendurada por um fiapo de pele, e eu passei mal daqui, e a gente nem se falava mais ao telefone, a gente gritava, e eu falei que era pra eles correrem com o Povo pro Jardim Botânico, que eu ia acionar o Rubinho, o melhor cirurgião veterinário do planeta Terra pra mim, pra fazer a amputação do membro dependurado do Povo, e entre as ligações que eu não parei de fazer pra falar com o Rubinho, eu tinha vontade de fazer xixi e vomitar, sentia que o mundo tinha despencado em cima de mim, meu cachorro foi esfaqueado, caralho, o ser humano é foda, eu tenho vergonha de ser gente, coitado do meu peludo, meu Deus, o que será que ele está sentindo, será que está sentindo a dor que eu estou sentindo, e aí eu achava que ia desmaiar de tanta dor, mas a dor não era minha, era do meu cachorro e da minha mãe, e aí eu finalmente falei com o Rubinho e tomei o primeiro choque de realidade do dia quando ele disse que só estaria no Rio dali a muitas horas, à noite, e que eu ligasse pra ele pra confirmar a amputação assim que visse meu cão, porque ele teria de me encaixar lá pelo meio da madrugada. OK, verei o estrago primeiro, isso eu posso fazer. E quando finalmente vi o meu Povo Brasileiro, depois de ter passado a última hora acompanhando o deslocamento dos meus pais pela estrada, orientando-os a verificar os sinais vitais do cão com medo d'ele morrer de choque hipovolêmico pelo caminho, abri a boca a chorar, mas desta vez de alívio: o meu galgo só tinha um grande corte na pele. A pata não estava nada dependurada por um fiapo, isso foi só uma fantasia da minha mãe que olhou praquela coisa feia de relance e imaginou todo o resto. Levei-o ao IJV, suturamos a pele e fomos felizes para sempre. Mas meu pós-operatório foi complicado: tive de ligar pro Rubinho, que vergonha, pra dizer que a amputação era só uma sutura de pele e que estava tudo bem, desculpe ter sido tão pentelha e neurótica, mas entenda: eu também sou dona, e como todo dono de cachorro, sou maluca. Sorry.

Então entreguei um lenço pra moça que chorava pela dor de seu cão e falei: "Tome, pode chorar. Ele vai ficar bom, mas até lá, pode chorar, que chorar não faz mal a ninguém." Quando ela me agradeceu por ter autorizado seu choro, pôs-se a chorar ainda mais, e aí eu tive de retomar a situação e dizer: "Agora chega, já chorou sua cota, se chorar mais, vai ter de pagar outra consulta."

Ela se controlou, eu fiz a receita e me despedi deles pensando que amar é ter um coração batendo fora do corpo, sentindo a dor do outro e sendo piegas pra caralho, porque, se não fosse assim, não seria amor.

Foi pensar isso que eu chorei entre uma consulta e outra, claro, mas TPM é pra isso mesmo: é pra drenar as retenções de líquidos, porque só dois rins não dão conta de tanto mar. Eu deveria ter nascido com 4 rins, mas como não nasci, choro mais do que a média pra expurgar os fluidos amorosos que tanto me afogam.

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