Este é o meu quartinho de bagunça. Da embalagem vazia de Chokito ao último livro do Saramago que eu não terminei de ler, você encontrará aqui de tudo um pouco.

domingo, maio 25, 2008

A coLáleta de sangue

Uma das vantagens de se ter uma babá super-qualificada e hipocondríaca é justamente o diagnóstico precoce de algumas doenças. A Lála não tem como saber disso porque é apenas um cachorro; não bastasse ser um cachorro, é também um poodle, uma das raças mais sócio-politicamente alienadas que há. Para preservar sua inocência e mantê-la ignorante de minha identidade secreta de médica veterinária, terceirizei a um enfermeiro do CAD a suja tarefa de furar seu bracinho encaroçado para a coleta sangue de um check-up de rotina. Ele chegou, lavou as mãos e perguntou se o cachorro mordia. Respondi, entre dentes, que cachorro que ladra não morde e pensei, cá com meus botões, que nenhuma pessoa que lide rotineiramente com animais dotados de dentes deveria fazer uma pergunta estúpida dessas, porque, afinal, pega muito mal. Todo animal dotado de boca e dentes morde, ora bolas, basta que para isto a boca se abra e feche sobre o objeto mordido.

Posicionamos a Lála sobre meu colo no sofá, ele sacou da maleta aquela borrachinha de garrote e, quando apertava o laço sobre o bracinho não-encaroçado da menina, noto um convulsionar de corpos, um recuo do homem e ouço um pífio "ai".
- Ela me mordeu, o moço disse.
Pedi pra ver o local da mordida, analisei bem a situação e decretei:
- Não, ela não mordeu: ela bicou. É diferente. Mordida sangra ou, no mínimo, fica com a marquinha dos dentes. Ela só te bicou pra te alertar que preferiria que você não a tocasse. Vou ter um particular com ela, me dê só um segundo.

Tive meu particular com a Lála. Porque ela estava agitada, precisei lançar mão de um recurso extremo, o doguitos, para que ela se concentrasse 100% nas coisas importantes que eu tinha pra lhe dizer:
- O mosquito, que não é da dengue, e mesmo que fosse não te contaminaria, vai te picar aqui no bracinho. Você vai levar um susto, mas será um susto rapidinho, a gente vai ficar paradinha por 60 ou 90 segundos, e depois eu vou te dar esse doguitos aqui (e talvez mais um), a gente vai passear e daqui a dez minutos ninguém vai se lembrar desse episódio.

Não foi tão simples assim: precisamos chamar a Fabiana, minha diarista, pra segurar os pezicos da Lála que se agitavam no ar. Ela ainda tentou bicar o enfermeiro algumas vezes, mas na quarta tentativa o sangue saiu, ele encheu alguns tubos, e fomos felizes para sempre.

Alguns minutos depois, quando eu e minha protegida caminhávamos ao sol da meia estação, comecei a gargalhar alto, rindo sozinha da minha cara-de-pau encerada e lustrosa, que livrou, ao mesmo tempo, não só o enfermeiro de uma mordida no exercício da função, como a minha própria mão d'uma bicada e a Lála do estigma de cão feroz mordedor de coletores de sangue e quetais. Poodles são tão fofos que deveriam ficar longe de qualquer tipo de estatística.

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