Este é o meu quartinho de bagunça. Da embalagem vazia de Chokito ao último livro do Saramago que eu não terminei de ler, você encontrará aqui de tudo um pouco.

terça-feira, julho 08, 2008

Pessimesmo

Lála é um cão que sabe viver: se ela está angustiada, faz xixi; se está com fome, late; se está carente, pula em nosso colo e vira a barriga pra cima com a maior cara-de-pau do mundo. A vida parece ser mais suave aos poodles, ou pelo menos aos poodles que sabem viver. Eu, que tenho experimentado o castigo do peso sobre meu ser nos últimos meses, invejo os poodles que sabem viver, porque eles são dotados da única coisa que ainda cobiço na vida: a leveza existencial. Daí pra outras cobiças é um pulo, mas "uma cobiça de cada vez" é o mote do bom consumo-existencialista. Bom selvagem já morreu, quem manda no meu existencialismo sou eu.


Por que eu comecei este post pessimista pelos poodles? Bem, talvez porque nem só de alegrias Lálianas seja feita esta raça-pompom. Hoje esbarrei no prenúncio da maior tragédia humana que jamais poderia existir na figura de um poodle, ou pelo menos aquilo que parecia ter sido, um dia, um poodle: uma quase carcaça de cão, engessada em fezes e pêlos, foi encontrada na Quinta da Boa Vista por duas estudantes de veterinária que fazem estágio no zoológico. As meninas levaram o cão pro IJV, e algum veterinário de lá olhou para aquele cenário de horror e imaginou ver um cão, e porque imaginou que embaixo daquele horror de lacerações, deformações, traquéia exposta a céu aberto e odores que fariam qualquer fada morrer, ainda havia um cão. A criatura suspeita de ser cão tinha de ser tosada urgentemente, porque sua carapaça de fezes e pêlos era tão impenetrável que não dava pra saber se era macho ou fêmea, se tinha acesso venoso femoral ou jugular, enfim: por baixo de todas aquelas coisas feias e fedidas, algum veterinário ainda achou que ali existia um cachorro; e brigou pra que todos vissem a mesma coisa. Eu não quis ver, eu não queria ver, eu não queria me envolver. Mas minha diretora repetiu: "Vanessa, você já viu como está o coitadinho?" E eu, que fiz tanta questão de não olhar, quando me distraí, olhei direto nos olhos dele, olhos como os da Lála, vivos e interessados no ambiente, olhos que me dilaceraram por dentro: como um bicho sem pele, sem carne, sem pescoço, sem traquéia e sem perspectivas pode ainda olhar pro mundo com curiosidade e vivacidade? Essa curiosidade e esse desejo de viver só podiam estar zombando de mim!


Mais por estar hipnotisada pela alienação daquele animal à sua própria tragédia do que qualquer outra coisa, acabei ajudando a Lúcia, professora de banho e tosa, a remover a couraça que os meses de maus tratos haviam gerado naquele cão. Eu apoiava o cão na banheira, conversava com ele, sentia uma ponta de inveja de sua certeza de que uma vida melhor lhe aguardava e via a Lúcia vencer com a máquina, bravamente, carapaças e mais carapaças de pêlos com cocô. Não estou falando de nós, muito menos de embôlos: estou falando de um molde inteiriço e duro, dentro do qual se poderia fundir uma escultura de cão em bronze. Um molde triste. O ser humano pode chegar a este ponto, e não há fim para o fundo desse poço tenebroso.


Quando saí da sala de banho, uma nuvem negra pairava sobre minha cabeça: então é geral. Não é só a engenheira carioca que deixa de existir em circunstâncias misteriosas, nem é só o tenente que sacrifica 3 vidas inocentes em nome de sua controversa honra; não é só a criança de 3 anos executada por policiais, nem o bebê ou a criança de 5 anos jogados pela janela por progenitores inaptos. Da mesma forma, não é só o extermínio de animais na China, nem o extermínio de gente no Iraque e em todos os outros lugares que nutrem a indústria da guerra: é tudo isso e mais um tanto. E é tanta morte, tanta dor, tanta crueldade e tanto desamor, que eu me pergunto se ainda existe alguém que veja algum sentido na vida, apesar disto.


O poodle da Quinta, que foi resgatado por pessoas que acreditaram que ali existia uma chance de vida, é apenas um emblema. Estou esperando que alguém assim, tão grandioso, venha em nosso resgate. Estou ansiando para que ainda haja algo grandioso em mim que me faça acreditar que existe sentido em acordar, dia após dia, apesar de ver essas coisas se repetirem como no Feitiço do Tempo. Eu devo ter feito algo de muito ruim pra ter enfeitiçado o tempo assim.



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