Este é o meu quartinho de bagunça. Da embalagem vazia de Chokito ao último livro do Saramago que eu não terminei de ler, você encontrará aqui de tudo um pouco.

quinta-feira, setembro 25, 2008

Desabafo pós-operatório

Este pós-operatório está sendo bem mais complexo do que poderia supor minha vanOr filosofia. Primeiramente, eu só fiz essa porcaria de cirurgia porque os médicos sempre pintaram um quadro de futuro respiratório fantasticamente melhor depois que o desvio de septo se fosse junto com os lixões sinusais que só uma intervenção cirúrgica poderia remover. Eles me prometiam proteção contra as sinusites que costumam me derrubar trimestralmente. Mesmo assim, passei anos repetindo as mesmas desculpas para não me operar: que eu já estava acostumada a respirar pela boca; que eu não roncava, ronronava; que mesmo que eu roncasse, o que só passei a admitir depois de fazer uma polissonografia, eu não fazia apnéia noturna.

Demorei foi tempo pra resolver me operar! Até porque eu já tinha feito essa cirurgia há 12 anos, mas pelo visto desvio de septo é que nem levantamento de peitos: de vez em quando você tem que fazer de novo, porque septo nasal volta a entortar e peitos voltam a cair.

Minha médica me convenceu de que o pós-operatório seria tranqüilo e que não me deixaria com um tampax em cada narina na volta à casa. No lugar do tampax, que quase me matou da última vez, ela colocaria um dreno. Ela só não disse que o dreno seria do tamanho de um tampax, calibre super. Também achou melhor me dizer só na hora de sair do hospital que o meu controle da dor seria com tylenol. Tylenol, chapeize: aquele objeto cenográfico que neguinho toma no trabalho pra simular uma dor de cabeça numa sexta-feira mais lenta. ONDE ESTÃO OS OPIÓIDES QUANDO A GENTE MAIS PRECISA DELES?!?

O resultado é que na terça, quando passou o efeito bom dos remédios da anestesista, eu acordei na terça com a sensação de que estavam tentando arrancar meus dentes pelas narinas. Contudo, eu não quis me desesperar: fui zen, segui as recomendações e tomei meu placebol direitinho, muito embora eu não acredite em nada que se venda sem receita médica azul ou amarela. Porque eu sou religiosa e confio muito nas coisas em que confio muito, tomei um tarja preta pra dormir, mas acordei na quarta com a face esquerda tri-pli-ca-da. Meus dentes latejavam, arrastando bochecha, testa, têmpora e nariz pro abismo da dor em sua agonia mais pulsante. Tentamos localizar os médicos que me operaram: celular, pager, consultório. Nada. Escolhi um antiinflamatório potente eu mesma, morrendo de medo de acertar justamente aquele que mata asmático pós-operado, e só então consegui relaxar pela primeira vez depois de algumas horas com dor. Pouco depois, finalmente um médico me liga de volta em resposta à última mensagem desesperada de meu pai no pager. Pager, galera: aquele aparelho medieval que existia antes do celular. O mais fantástico é que o médico que me ligou nunca tinha me visto e não sabia que cirurgia eu tinha feito, mas ainda assim opinou: "Ah, essa dor é normal porque a cirurgia que você fez tem uma incisão na gengiva". Não dormi a noite inteira tentando entender onde diabos tinham me cortado a gengiva e porque diabos não tinham dado ponto nesse corte ou feito recomendações sobre a higiene bucal. A gente limpa o tártaro de um cachorro e faz mil recomendações de pós-operatório; médicos abrem minha gengiva e foda-se? Ou melhor: foda-me?

Senti na carne o desamparo de um útero rasgado se esvaindo em abandono numa hora dessas. Podem falar o que quiser de veterinário - que somos broncos, que não usamos salto alto e não somos famosos por produzir o melhor da ciência -, mas uma coisa eu posso afirmar: tem muito médico por aí precisando fazer um estágio na clínica veterinária mais próxima para aprender a tratar de seus pacientes com o mínimo de humanidade!

E hoje, quando eu finalmente falei com minha médica e fiz todas essas considerações cara-ao-cubo-a-cara, ela disse que eu sou muito sensível. Escrevam aí: se algum dia eu precisar fazer alguma outra cirurgia, só entro no centro cirúrgico na presença de um médico veterinário responsável pelos aspectos humanitários inalienáveis da relação médico-paciente. Quem diria!

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