Este é o meu quartinho de bagunça. Da embalagem vazia de Chokito ao último livro do Saramago que eu não terminei de ler, você encontrará aqui de tudo um pouco.

segunda-feira, setembro 01, 2008

O dia em que o mundo correu.

Desde que soube da Ni-ke+ HumanRace, fiquei nervosíssima para participar. A idéia era brilhante, uma genialidade marketeira da empresa famosa por explorar o trabalho infantil na China: no dia 31 de agosto de 2008, num determinado horário, pessoas de todo o planeta iriam correr 10km em prol de um mundo melhor. Ninguém sabia onde nem exatamente como uma corrida maluca poderia mudar o mundo, mas a idéia era tão boa que eu nem me preocupei com esses pequenos detalhes. O que torna essa corrida um fenômeno do marketing esportivo mundial é que, desde sempre, 3 meses antes do evento, estava claro que quem corresse com produtos Ni_ke+ teria vantagens (widgets, músicas, treinos, rankings locais e mundiais) sobre os demais. Imagina o impacto disso numa mente fraca!

As informações sobre a corrida, no início, era extremamente vagas, mesmo no site da naique, onde parecia que as inscrições estavam abertas, mas, ao contrário das corridas comuns, o organizador do evento não estava interessado no dinheiro dos inscritos, só queria saber a cidade de onde eles iriam correr. Como eu já estava planejando minhas férias, fiz minha pré-inscrição em Nova York. Depois fui saber que este foi só um artifício para determinar onde haveria quórum mínimo para justificar a organização do evento, que acabou ocorrendo em apenas 25 cidades no mundo todo. O Rio de Janeiro não foi uma delas, mas São Paulo teve quórum e representou o Brasil na grande corrida humana. Quando abriram as inscrições de verdade, descobri que os corredores poderiam contribuir para um mundo melhor escolhendo uma entre três 3 ONGs de alto nível -- a WWF (ambiental), a LiveStrong (para a luta contra o câncer) e a Nine Million (da ONU, para crianças refugiadas) -- para doar parte do valor de sua inscrição. Eu doei para a LiveStrong, porque acho que o câncer é, num só tempo, a doença mais triste e a metáfora mais completa para todos os males do mundo, da corrupção ao efeito estufa.

A corrida aconteceu na Randall Island, um pedacinho de terra ao norte de Manhattan que Deus não fez e o diabo não quer. O Ken, que mora em NYC há 36 anos, nunca tinha ido lá, porque ninguém nunca vai lá. A corrida, no entanto, tinha de comportar 10 mil participantes e um palco para o show pós-evento, então a Randall Island era perfeita para isto porque tem um estádio e um gramadão imenso ao lado. Acostumada que estou a corridas que começam às 8h, passei 2 semanas com medo de não conseguir acordar o Ken a tempo, e passei um tempo estudando o mapa do metrô e da cidade, just in case ele não conseguisse acordar at all! Eu teria sido a primeira pessoa a chegar na ilha maldita se, no dia de pegar meu kit de corrida na NaiQue Town, uma loja de 5 andares no coração de Manhattan, eu não tivesse perguntado, a título de confirmação pré-histérica, a hora do início. 18h, me disseram. Ken respirou aliviado, mas eu fiquei desapontada, porque minha idéia era correr às 8h, ver o show pós-corrida às 10h, chegar no Little Brazil antes da muvuca e poder assistir a todos os shows. Não preciso explicar muito porque o Ken respirou aliviado.

Chegamos à ilha pouco antes de 17h e, quando eu vi o mar vermelho de gente, como disse a Jussara S, senti aquele nervoso típico de maratonista antes da prova. A Starbucks distribuía café, a Naike fazia a pré-venda do livro com fotos do evento no mundo todo (por apenas alguns dólares a mais, o contribuinte poderia customizar a capa com sua foto), fotógrafos se empilhavam em cercas com máquinas e lentes imensas, participantes se alongavam, o mar de gente não parava de passar com seus aipodes, e eu dei meia volta na ilha e não conseguia achar o local da largada. O Ken localizou umas bandeirinhas que diziam 12 mile, 11 mile, 10 mile, mas estavam tão perto uma da outra que eu nem precisava saber que uma milha equivale a 1,6 km para saber que aquilo ali não era marca de distância percorrida. Fui salva por dois corredores brasileiros que me explicaram que as bandeiras marcavam o local onde cada corredor deveria dar a largada, de acordo com sua velocidade média (minutos por milha). Procurei minha bandeira 12, e fui resignada pra rabeira do cometa pensando que algo estava estranho. Ou eles esperavam muitos alemães na corrida, já que eles são realmente muito obedientes e correm na velocidade estabelecida, ou aquilo era só uma forma de disfarçar que a pista (que tem a largura da ciclovia da Lagoa na altura do Corte) era pequena demais pra comportar tanta gente.

Não deu outra. Era tanta gente que a largada ocupava um bom bocado do percurso. A corrida começou com 36 minutos de atraso, o que me deixou agitada, sangüínea e nervosa como um puro sangue inglês no padoque, muito embora eu esteja mais pra Nelore que PSI. Eu queria correr como um cavalo de turfe, mas quando estourou a boiada e aquela poeirada veio toda na minha cara, eu tomei um duro golpe de realidade e percebi que a galera da bandeira 12 não pode correr antes da galera da bandeira 11, e por aí vai, simplesmente porque as pessoas da frente formam uma barreira humana de cotovelos, bundas e pernas. Quando eu comecei a correr, o pessoal do início da largada já estava completando a primeira volta (eram duas). A pista era realmente estreita demais pra tanta gente, e havia um trecho, sobre uma ponte de madeira, em que ela se tornava ainda mais estreita, e todo mundo precisava parar completamente por cerca de 1 minuto para depois atravessar a ponte andando, porque a ponte estava tão pesada que balançava como um navio na tormenta. Isso deve ter tirado pelo menos 1,5 min de cada participante, mesmo os da elite, o que é extremamente lamentável numa corrida.

Bom, eu tinha um tempo mínimo a fazer, e portanto não tinha tempo para me lamentar. Abri sprints nos trechos mais espaçosos e consegui terminar os 10km em 1hora, 11 minutos e 40 segundos. Curti um belo pôr-do-sol no caminho e, na chegada, recebi um canudo de papelão da Naike que haveria de conter minha merecida medalha. Comi um pouquinho, alonguei-me um pouquinho, e meu coração não parava de disparar quando eu pensava na medalha, então parei de enrolar e abri o canudo. Não era uma medalha. Era uma pulseira. Não dizia o dia nem o local do evento. Não provava nada, enfim. Tive vontade de chorar quando lembrei como era bonita a medalha da meia que eu não corri!

Estava pronta pra falar pro Ken o quanto estava decepcionada, mas ele estava tão feliz por me ver, me deu tantos beijos e parabéns porque eu tinha terminado a prova, que eu até esqueci o que ia dizer. Chequei a rir da minha cretinice, porque eu tinha acabado de participar da maior corrida mundial da História, minha primeria corrida fora do Brasil, fiz um tempo melhor do que esperava (apesar dos gargalos na pista), meu namorado estava lá para me fazer companhia e torcer por mim, e eu realmente não tinha nada do que me queixar. Ademais, estou proibida de me aborrecer.

Só me restava fazer uma coisa antes do show do All American Rejects: corrigir meu lapso comportamental de minutos antes. Dei um pretexto qualquer pro Ken (ele é ótimo, nunca contra-argumenta), disse que ia voltar ao estádio e pedi pra ele me encontrar na saída do outro lado. Aproveitei-me da falha na organização, voltei pra pista, passei correndo novamente pela linha de chegada, beijei o chão dos 10km, posei um pouquinho pros fotógrafos, deixei os holofotes me cegarem e senti nas veias a vibração de quem participa de um evento esportivo mundial fora de casa! Corri na direção dos postos de brindes e hidratação como quem corre pro pódio e, aí sim, eu estava pronta para pegar a medalha, mesmo sabendo que seria uma pulseira.

Encontrei o Ken na saída e dei-lhe a pulseira-medalha, mas justo aquela pela qual eu tinha vibrado, pelo bom namorado que ele é e por ter me mostrado que há mais entre o início e o fim de uma corrida que uma simples medalha. Ele, por sua vez, ficou todo orgulhoso de ter a pulseira dos 10k sem ter corrido nada e disse que agora estava realmente animado para começar a tentar correr. Não existe medalha melhor do que essa.

Voltamos pra casa andando (3,6 milhas, façam as contas) e admirando as luzes da cidade que nunca dorme.


Na entrega dos kits de corrida, na Naike Town. Camiseta com número impresso e mapa do circuito.


O apelo irresistível. Quem não ia correr, sentiu vontade.


Eu e a galera da bandeirinha 12. Aqui tem mais gordinhos que na bandeira 11, 10, e por aí vai. (foto: Ken)

Mar vermelho. Todo mundo de naike e aipode. Não há como não reconhecer que esse marketing é genial!


A chegada, dentro do estádio da Randall Island. Mar de gente. Cheguei poucos minutos depois disso, mas o Ken não conseguiu me localizar no meio da multidão e nem tinha como estimar meu tempo, porque a largada foi realmente confusa. (foto: Ken)


A primeira chegada da guerreira: ainda pensando na alegria zen do Ken e o que eu precisava fazer para resolver minha falha conceitual de caráter.


Fogos de artifício ao final do show do AAR, uma banda que acumula as groupies mais jovens de NYC.

A pulseira da discórdia ou a medalha zen.Pick one.

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