Este é o meu quartinho de bagunça. Da embalagem vazia de Chokito ao último livro do Saramago que eu não terminei de ler, você encontrará aqui de tudo um pouco.

terça-feira, agosto 19, 2008

A lenha universal

Os cientistas sempre apostaram na matemática como língua universal, só que eles nunca incluíram em suas conjecturas filosóficas e em seus cálculos complexos pessoas como eu - e eu sei que há muitos de nós por aí -, que não fazem uma simples adição sem suar frio.

Alguns de vocês, como o Joel, engenheiro importante e algumas vezes ridículo, poderão ficar horrorizados com o que eu vou dizer, mas eu só sobrevivi 36 anos sem matemática porque tenho a capacidade ímpar de disfarçar minha ignorância escondendo-me atrás de pessoas que realmente sabem calcular o rateio do bar, como a Jussara, e entregando na mão delas - e nas mãos benevolentes, sometimes, de Deus - o meu cheque preenchido, assinado e cruzado. De uns meses pra cá, até comecei a usar planilhas de excell no palmtop para controlar minhas despesas e meus pontos do vigilantes do peso, e qual não foi minha surpresa quando descobri, em poucas semanas, que fazer a soma certa pode levar um ser humano funcional ao emagrecimento, além de evitar a inevitável falência financeira, que é aquilo que acontece com todo mundo que gasta mais do que ganha.

Enfim, matemática é pura alegria e eu não vivo sem ela, mas desde que cheguei em Nova York percebi que o excell, melhor amigo dos dummies, não funciona em todas as situações. Ou melhor, até funciona, mas não é prático. Um exemplo clássico disto é a academia de ginástica. No meu terceiro dia aqui, me inscrevi numa academia ao lado da casa do Ken, pois aqui por perto não há parques onde eu possa correr, e eu queria correr para comer (o que também foi uma decisão puramente matemático-gastronômica que eu tomei para estas férias, pois viajar sem comer de tudo é a coisa mais frustrante do mundo).

Sobre a academia que me fez perceber que matemática nos olhos dos outros é refresco:

A Club Fitness New York é uma academia com tudo o que você precisa e até tudo o que você não precisa. A sala de musculação tem centenas de aparelhos que eu nunca vi no Brasil, e nenhum aparelho é igual ao outro. A área de bíceps, que é o músculo preferido dos homens rústicos, tem - sozinha - cerca de 10 aparelhos, o que é um exagero sem tamanho. No vestiário das mulheres, além de 3 tipos de sauna, jacuzzi e armários que você não precisa alugar (basta enfiar seu cadeado ali por fora e ser feliz), há também um lounge luxuoso, com TV de plasma, sofás caros e carpetes pompom. Imagino que esse espaço sirva para aquela pessoa que chegou à academia, ficou com preguiça de malhar e resolveu sentar ali pra ver o noticiário ou fugir do marido. Mas há 50 TVs igualmente enormes em frente às esteiras, então eu realmente não entendo o lounge das mulheres. Usando um raciocínio puramente cretino e matemático, acho que a Club Fitness tem tanto dinheiro, mas tanto dinheiro, que pode até enfiar algum no c* e rasgar.

As esteiras de Nova York

Correr em esteira é como comer ração: você até atinge o objetivo, mas um grande quinhão da alegria se esvai na ausência de contato com o mundo lá fora. Ah, mas tudo vale a pena quando a alma não é pequena! E essas esteiras daqui são realmente sofisticadas, com programações incríveis. Eu nem sabia que podia correr ladeira abaixo numa esteira, mas aparentemente posso tudo o que eu quiser, só que para isso... preciso saber a porra do meu peso em libras. Aí eu faço um esforço mental incrível e lembro que 1 kg = 0,454 lb. Ou vice-versa? Tento o vice-versa e percebo que a esteira me olha incrédula: 25 lb, tem certeza? Hum, talvez seja o contrário. E ela pareceu ficar mais feliz. OK, superamos a fase do peso. Vamos agora ajustar a velocidade: a que velocidade você quer correr? Quero aquecer a 7,5km/h. Ah, você quer saber quantas milhas por hora? Sei lá. 3? Vamos experimentar 3. OK, 3 não presta; 3 é uma caminhada com muletas. Vamos tentar 3,5. Não, muito devagar. 4. Que merda de esteira, será que essa bosta tem o modo corrida? 4,5. Ah, now we're talking! Será que eu agüento 5 milhas por hora? Uh, isto sim é velocidade, e como a velocidade entorpece! Mas meu coração não está batendo como costuma bater, por que será? Estou tão bradicárdica em Nova York, será o ar? Talvez aqui tenha mais oxigênio. Talvez 5 seja pouco. Vou testar o 6,5. Carajo, meu irmão, 6,5 é rápido demais! Tenho medo dessa esteira. Só volto a pisar nesta coisa com uma calculadora ou um google.

Depois de uma hora, a esteira disse que eu tinha corrido 4 milhas. Cheguei em casa toda feliz e pedi pro Ken fazer as contas de quanto isso dava em quilômetros. Ele disse que dava 6km e uns trocados, e eu fiquei super desapontada. Como eu pude passar tanto tempo correndo pra não completar nem uma Lagoa? Quis chorar. No dia seguinte fui correr com meu podômetro, este sim corretamente calibrado em quilômetros, e controlei meu treino pela distância percorrida. Mas sem gadgets, fazer o quê? Neguinho tem mais é que aprender a calcular. E como eu sou a mulher das planilhas agora, fiz uma com os valores prontinhos, que é pra ninguém mais me engambelar no conto da milhagem. Quando eu estiver apta a fazer essas contas de cabeça, vou correr no Central Park o equivalente a uma Lagoa. Por via das dúvidas, vou levar o podômetro corretamente calibrado em quilômetros para me acudir em caso de desespero sináptico.

Porque o desespero sináptico acontece nas melhores famílias.

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