Este é o meu quartinho de bagunça. Da embalagem vazia de Chokito ao último livro do Saramago que eu não terminei de ler, você encontrará aqui de tudo um pouco.

sábado, novembro 22, 2008

Histórias que minha avó contava

Desde que entrou essa última tradução de prazo suicida, eu comecei a assistir a novela das oito. Em minha defesa, tenho a dizer que só assisto novela em casos extremos, e tradução com prazo suicida, definitivamente, é um deles. Todos os dias, religiosamente, depois de ter passado 12 horas na frente do computador, eu ligo a TV para encontrar um estado confortável de ausência mental que possa efetivamente esfriar meus neurônios, e poucas coisas além das novelas da Globo e de duas taças de vinho são capazes de produzir em mim esse estado.

Porque eu comecei a assistir a novela e em 3 ou 4 dias descobri tudo sobre a Ivete, a Donatela, a Flora, a Lara e etc, eu também incorporei à minha rotina televisiva a saudade de minha avó. Nessa novela das oito, há várias situações entre avós e netos, e todas elas me fazem lembrar da minha avó e de suas histórias, de minha avó e suas comidas, de minha avó e de seu amor pela vida, enfim: a atual novela das oito me mata de saudades da minha avó.

A começar pela música que ela cantava:
Que beijinho doce
Foi ele quem trouxe
De longe pra mim
Se me abraça apertado
Suspira dobrado
Que amor sem fim.

Mas não é só isso. De repente eu me lembrei de muitas histórias de minha avó. De como meu avô a abandonou numa casa cravada no meio do nada, com sete filhos, e de como ela se virou pra sustentar a prole sozinha e sem dar na pinta, numa época em que mulher sem marido era mulher mal falada. Minha avó, do dia pra noite, pra sobreviver, passou a dar pensão pra caixeiro viajante. Dar pensão, do verbo vender um prato de comida pra estranhos em sua própria casa, apesar do medo de gente estranha fazer mal às suas meninas. E caixeiro viajante, do substantivo vendedor que vai de uma porta a outra, de uma vila a outra, vendendo coisas que, naquela época, senhôra nenhuma encontraria na esquina do nada com coisa alguma. Da banha de porco ao corte de chita, e às vezes, do susto da chegada à supresa de levar sua menina mais velha pro altar ou pra perdição. E isso tudo sem um homem pra pôr ordem nas coisas num mundo que tinha sido feito sob medida pra eles.

O ofício de dona de pensão gerou muitas histórias, disso tenho certeza. Era uma época em que as pessoas conversavam efetivamente. Era uma época em que se dormia com as galinhas, porque eletricidade não havia, e as conversas ao lampião não podiam ir até mais tarde, porque combustível era luxo de rico.

Aliás, história da minha vó que eu adorava era a do concurso de peidos ao lampião. Ela não era casada ainda, e a noite caía. Havia um punhado de gente nova e sem muito juízo na casa de sua tia, e de repente um primo propôs uma competição: a do maior pum à luz da labareda. Aquele que soltasse o maior pum (direcionado à chama do lampião que iluminava a sala), ganharia. Puseram o lampião no chão. Os primos se aprumariam de cócoras, bundas alinhadas ao lampião, cada um a seu tempo, pra ver quem produziria a labareda mais longa. Aí, quando vovó contava esse causo, eu invariavelmente tinha as minhas dúvidas: "ô vó, eles estavam de calças ou de calças arriadas?" Minha avó desconversava. Eu insistia. Primeiro aos sete, depois aos onze, depois aos vinte anos. E minha avó desconversava. E eu insistia: "Mas vó, seus primos tiraram a calça ou não? Isso é importante, porque o pano da calça podia filtrar o peido, me entende? E uma coisa é o peido na chama, outra coisa é o peido enfraquecido pelo filtro das calças na chama." Mas minha avó desconversava e ia direto ao ponto: e o ponto era que um de seu primos teve a bunda chamuscada pela labareda durante a competição. E eu queria saber: "Mas ele estava de calças ou sem? O fogo pegou na calça ou na pele da bunda?". E minha vó se ria de dar gosto.

Na verdade, nunca importou se eles estavam de calças ou não. Não importa que minha vó, moça casta, tenha visto homens despidos de sua dignidade, prontos pra um concurso de peidos. Só me importa que era isso que embalava seus crepúsculos, mesmo décadas depois, quando já havia eletrecidade em sua casa e o mundo não se importava com famílias desfeitas por homens sem caráter.

E até hoje, quando lembro de minha avó rindo desses concursos de peidos que chamuscavam bundas vivas, tenho vontade, eu mesma, de viver num tempo em que a gente se ria de coisas tão puras.

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