Este é o meu quartinho de bagunça. Da embalagem vazia de Chokito ao último livro do Saramago que eu não terminei de ler, você encontrará aqui de tudo um pouco.

quinta-feira, outubro 23, 2008

Pensamento, esse monstro adorável que eu afogaria todos os dias.

Uma professora de yoga uma vez me disse que o pensamento é um monstro que devemos aprender a controlar. Em relação a isso, imagino que existam pelo menos três correntes sobre o controle da mente: a que acha que isso é impossível, a que acha que é perfeitamente possível e, por fim, aquela que acredita que o pensamento pode até deixar de comer suas galinhas, se for devidamente alimentado, mas nunca será domesticado ou usará um coleirinha ornamentada com o telefone de seu dono.

O pessoal do pensamento incontrolável percebe que, se ele começa com um foguinho, em pouco tempo toda a floresta da mente estará consumida pelo incêndio alastrante. Isso parece ter acontecido, por exemplo, com o pensamento do sequestrador da menina Eloá, em Santo André: um pensamento obsessivo de posse e uma grande incapacidade de aceitar a rejeição rapidamente evoluiram para pensamentos assassinos que acabaram por se concretizar com um empurrãozinho da polícia. Não sei se teria sido útil o negociador do sequestro dizer ao sequestrador: "Meu amigo, essas coisas feias todas estão só na sua cabeça, e é melhor que elas fiquem aí." Se isso funcionasse, toda a Psiquiatria moderna estaria em cheque. Se fosse tão fácil assim controlar o pensamento, não haveria hospícios, neuroses, psicoterapeutas e, puxa vida, talvez não existisse nem arte, porque uma das grandes utilidades da arte (ao artista!) é canalizar o pensamento caótico que não pode ser, de outra forma, exteriorizado.

Os controladores da mente, por outro lado, propõem técnicas infalíveis de autocura e meditação para a devida contenção neuroquímica endógena do monstro-pensamentoso. Eu, particularmente, acho isso duma ingenuidade risível, pois por mais que tenha tentado, nunca consegui esvaziar minha mente e pensar em nada. Mesmo quando nado, que é o mais próximo que eu chego de pensar em "nada", penso: "E se um cardume de peixes me atacar? Será que tem um tubarão me espreitando lá do fundo do mar? Quantos coliformes fecais eu acabo de engolir?". E se nado numa piscina, penso: "azul, azul, azul, opa: uma folhinha ali no fundo!" Por isso, toda vez que faço alguma aula ou sessão de relaxamento que começa com a voz pastosa do instrutor dizendo "Inspire profundamente e, na expiração, esvazie sua mente...", eu tenho uma vontade incontrolável de gargalhar, o que atrasa meu processo de relaxamento em cerca de dez minutos (sobretudo se a classe está cheia e eu sou a única espiando os outros de rabo de olho e gargalhando por dentro). Buda teria vergonha por mim, eu sei, mas andei conversando com muita gente que medita e todos me disseram que expirar o pensamento é a maior balela. Na melhor das hipóteses, você o filtra e pensa só em coisas desejáveis. O que me leva ao terceiro e último grupo: os que abdicaram de escravizar a besta e aceitaram ter com ela um convívio meramente pacífico.

Parece ser no mínimo razoável admitir que o pensamento não pode ser controlado, mas sim compreendido, relativizado, aceito e aprimorado. Prefiro pensar assim a imaginar que vim com um defeito de fabricação e, por isso, não consigo controlar meu pensamento. Aliás, em minha defesa, preciso lembrar que existe um grande abismo entre o descontrole total, como é o caso do sequestador assassino, e o controle absoluto, que é o caso de alguns faquires que conseguem reduzir abruptamente a freqüência cardíaca a seu bel-prazer, entre outras coisas fascinantes. Por outro lado, reconheço não ser nada fácil aceitar (de verdade) tudo o que se pensa espontaneamente. Muito processos são necessários para que um pensamento ruim não nos tire a credencial de ser humano. Por exemplo: imagine que você tenha um pensamento preconceituoso negativo (alguns especialistas defendem a tese de que o preconceito, antes de ser uma questão cultural, deriva do instinto de autopreservação, portanto pode ter conotação positiva, mas não vou entrar nesse mérito). Tenho certeza que você tem os seus, mas tomemos por exemplo o seguinte pensamento: "Prefiro morrer a morar num determinado lugar". Não vou citar lugares específicos porque o texto está grande e o pensamento descontrolado dos usuários de orkut só registraria a frase em negrito e rapidamente criaria comunidades para me exterminar. Aliás, essa descontextualização patológica aviltante às pessoas com meio cérebro hepatizado é exatamente o que o Eduardo Paes está fazendo com o Gabeira neste segundo turno, mas voltemos ao pensamento ruinzinho: "Prefiro morrer a morar num determinado lugar".

Primeiro você deve admitir que este pensamento é seu ("OK, eu penso assim e nem por isso vou me entregar à polícia; muita calma nessa hora!"). Depois, deve ser racional em relação a isso ("Há poucas chances de eu efetivamente morar nesse determinado lugar, então não há muito sentido ficar pensando nisso nestes termos": é neste momento que o pensamento pára de crescer e envenenar o portador. O dano está controlado). Agora que já admitiu e racionalizou, deve colocar o pensamento em perspectiva (Não deve ser nada fácil morar em um lugar esquecido pelo poder público; morar nesse lugar representa uma situação de exclusão sócioeconômica e cultural a qual eu dificilmente me adaptaria, é natural que eu me sinta assim). E, por fim, aprimorar o pensamento para que ele, um dia, possa sem externado sem semear a cizânia* (talvez, em vez de me atacar - prefiro morrer a morar lá! - eu deva votar melhor; talvez eu deva cobrar providências aos governantes; talvez eu possa me associar a um grupo de voluntários e fazer algo por essa comunidade, afinal isso me incomoda a ponto de eu preferir morrer a lá viver).

Pensamos coisas inomináveis que jamais verbalizaremos, mas tudo bem: a sociedade espera isso de nós. O abismo entre o que se pensa e o que expressa é o que define a moralidade. Ou a hipocrisia. Não é nada bonito admitir que estou no grupo dos hipócritas e quetais que não controla o pensamento (apenas o aceita, contextualiza e aprimora) o que, em última instância (e só pra dizer o mínimo), significa que tenho pensamentos muito maus, sobretudo contra mim, mas que eu nem sempre verbalizo.

Então, como exercício de auto-aceitação, hoje vou verbalizar um desses pensamentos muito ruins que não tem saído da minha mente nos últimos dias: o ser humano é um terreno extremamente fértil para o rancor e o ódio, mas o amor não germina com tanta facilidade nas pessoas. A mente humana não aceita facilmente o pensamento alheio (e o credo, a opção sexual, as diferenças culturais, etc), e isso faz parecer verdade a máxima de que todo mundo é uma ilha. Estamos todos exilados, de certa forma, em nossa própria ignorância. E como aprimorar um pensamento tenebroso desses? Só através da esperança. Esperança de que nasçam (ou já tenham nascido), no mundo inteiro, milhões de pessoinhas portadoras da eloqüência e do altruísmo necessários para convencer todas as outras, pessoas normais como eu e você, de que o pensamento coletivo pode ser direcionado para coisas boas. As palavras, unidades estruturais do pensamento, podem ferir e provocar guerras, mas também podem salvar o mundo. Para isso elas têm de ser proferidas no formato exato, aquele que fala direto à alma, e encontrar ouvidos aptos e mentes abertas dispostas a lapidar seus pensamentos ruins.

* Ainda que a cizânia seja a premissa do orkut e dos leitores raivosos de blogs em geral.

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