Este é o meu quartinho de bagunça. Da embalagem vazia de Chokito ao último livro do Saramago que eu não terminei de ler, você encontrará aqui de tudo um pouco.

quarta-feira, outubro 15, 2008

A farsa do granuloma estenosante

Cheguei ontem no meu otorrino furiosa. Antes de prosseguir este relato, eu reconheço que não deve ser nada fácil ser o otorrino que me operou porque eu sou uma daquelas pacientes hipocondríacas da pior espécie, do tipo que já chega no consultório com três diagnósticos e vinte pedras na mão. Mas ainda assim, caramba, eu só fiz essa porcaria de cirurgia de desvio de septo porque uma médica de 12 anos me disse que em 5 dias eu estaria de volta à minha vida normal. Sei que a gente só acredita naquilo que quer acreditar, de fato, mas fato é que se passaram 24 dias da cirurgia E MINHA VIDA NÃO VOLTOU AO NORMAL!

Toda terça-feira, até dezembro, eu terei de ir ao consultório do meu otorrino pra ver como diabos está a porcaria do meu nariz. Mas ontem, pra não variar, meu nariz estava muito mal. Ele perguntou, simpático:
- E aí, como vai o nariz?
- Mal, doutor, muito péssimo! Pois eis que eu descobri um granuloma lá dentro da narina esquerda. Não bastasse ser um granuloma epitelizado, vascularizado e o diabo a quatro, o monstro ainda está estenosando 3/4 da minha narina. Há dias que não durmo por isso: acordo com a boca seca, os lábios ressequidos e olheiras que inequivocamente acusam o tanto que eu não dormi.

Ele fez cara de "hum, sei", pegou um espéculo e uma lanterna pra fuxicar dentro do meu nariz. Aí eu perguntei:
- Viu o granuloma?
- Vi. Nossa, granulomão.
E veio pra cima de mim com uma pinça enorme. Eu tive que protestar:
- Doutor, mas o que qué isso?!? Você quer tirar meu granuloma epitelizado e vascularizado assim, sem caneta nem talão? Vai doer, doutor, peralá, como assim?
- Apenas relaxe e respire. Pode ser pela boca. Pense nos cachorrinhos.


Então eu confiei. Respirei e não relaxei, que a gente confia, pero no mucho. Segundo seguinte, ele retirou um grande tumor vascularizado e sanguinolento de dentro de minha narina. E me mostrou:
- Olha aqui o seu granuloma.
- Mas como você me tira um tumor assim, sem anestesia?!?, perguntei bastante chocada.
- Simplesmente porque melecas não sentem nada.
Fiquei bolada.
- Meleca? Você está querendo dizer que meu granuloma era, na verdade, um obrocotoma melecóide benigno embora altamente indiferenciado, vascularizado e epitelizado?
- Sim. E mais um pouco, seu tumor vascularizado, epitelizado e estenosante criaria um cérebro e competiria contigo em criatividade.

Putz grila! Justo naquele dia em que levei meu pai ao otorrino porque podia jurar de pé junto que, quando o médico visse meu obrocotoma nasal, chamaria o resgate aéreo do meu plano de saúde pra me levar pro centro cirúrgico mais próximo. Enquanto o médico ia revelando, pouco a pouco, que minha incrível complicação pós-operatória era apenas uma meleca, eu ia olhando de rabo de olho pro meu pai pra ver se ele estava rindo da minha cara. Não estava. Mas poderia, porque na véspera, eu juro que disse pra ele (pra minha mãe, não, que ela não é forte o bastante) que esse pós-operatório tinha tomado um rumo fatal inesperado.

Bem, a verdade é que eu estou aqui, vivinha da silva. Tiraram a meleca e ficou a pessoa: às vezes, isso acontece, até nas melhores famiglias.

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