Este é o meu quartinho de bagunça. Da embalagem vazia de Chokito ao último livro do Saramago que eu não terminei de ler, você encontrará aqui de tudo um pouco.

segunda-feira, outubro 20, 2008

Meus cães de guarda-segredo.

Meus pais voltaram de Miguel Pereira envergonhados ontem: descobriram que nossos peludos não são cães de guarda convencionais. São cães de guarda-segredo. Explico:

Numa noite fria e úmida - e em Miguel Pereira, O Terceiro Melhor Clima Do Mundo, as noites frias são realmente muito frias -, minha mãe ouve um ruído vindo lá da cozinha. De baixo de seu murundu de cobertas, ela fez unidunitê pra escolher quem seria incomodado para investigar que barulho era aquele. Na suíte presidencial da casa naquele dia, dormiam 4 criaturas encolhidas de frio: meus pais, em sua caminha modesta, e meus peludos, em suas camas maneiríssimas sob suas respectivas cobertas felpudas. Minha mãe, é claro, lançou o primeiro olhar de súplica para o Povo Brasileiro, nosso Galgo Iraquiano, que embora castrado ainda é o macho alfa da casa. Quando ele sentiu o olhar suplicante de sua escrava humana lhe pesando sobre o cangote, ajeitou-se na almofada, virou-se de costas e afundou a cabeça entre as patas e a coberta. E o barulho na cozinha, sinistro, lento, aterrorizante, prosseguia.

"Radija", minha mãe chamou baixinho. Minha mãe sempre confiou nos 35 quilos de pura ferocidade de nossa pastora islandesa, mas naquela noite, especificamente, a peluda estava cansada demais para sequer abrir os olhos. E minha mãe ainda insistiu, sussurrando: "Radija, levanta. Radija! Vá ver que barulho é esse na cozinha, anda!" Mas os pastores islandeses não respondem bem ao imperativo, então Radija fez o que se espera de um cão com personalidade nessas horas: não obedeceu ao comando. Mas ao menos abanou o rabo para dizer que tinha entendido, só que não ia rolar. E o barulho agonizante, como o de um batalhão de ratos marchando sobre as latas da despensa, não parava. Mas poderiam ser gambás, poderia ser um ladrão muito pequeno, poderia ser um tapete de baratas, enfim. Pelo barulho, era algo muito incomum e muito sinistro em nossa cozinha, e isso não podia ficar assim.

Então minha mãe, armada com uma chinela havaiana, foi ela mesma à cozinha ver o que era. Ao acender a luz, viu um vulto dramático cortar o céu entre a pia e a porta com um grito arrepiante. Gritou. Meu pai, que tinha sido poupado até então, acordou. E já que ele, que é o mais preguiçoso da casa, tinha acordado, os peludos acordaram também. E foram todos à cozinha, fingindo interesse genuíno, ver porque minha mãe tanto gritava. Sherlock examinou a cena do crime e diagnosticou: o vulto do ladrão pertencia a um gato. O gato estava jantando os restos do churrasco sobre a pia. Era elementar, meu caro Watson: só um gato teria aquela agilidade, aquele grito e aqueles dentinhos que ficaram perfeitamente marcados na picanha.

- Um gato?!?, estranhou minha mãe. Mas se fosse um gato, nossos peludos teriam ficado muito nervosos. Eles ficam muito nervosos na presença de gatos.
- Ué, e não ficaram?, quis saber meu pai.
- Não! Eles ouviram o barulho, ignoram meus apelos e simplesmente continuaram a dormir.

Meu sonolento pai pensou, mas não muito, pois o frio o compelia a voltar imediatamente para a cama, e decretou:
- Vamos guardar segredo, então. Como eles: se eles são cães de guarda (segredo), e deixaram o gato entrar e sair da cozinha na surdina, nós também jamais falaremos sobre isso a ninguém. Pela honra deles!

***

Em alguns momentos, minha família me lembra muito dos 3 Mosqueteiros. E nada me tira da cabeça que esse gato andou subornando meus cães. Em época de picanha, minha gente, vale tudo entre cães e gatos. Taí o Eduardo Paes que não me deixa mentir.

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