Este é o meu quartinho de bagunça. Da embalagem vazia de Chokito ao último livro do Saramago que eu não terminei de ler, você encontrará aqui de tudo um pouco.

sábado, abril 04, 2009

Umbigo, umbiguim, umbigao

Quando cheguei ao aeroporto de Santiago para tomar o voo de 5h20min para Rapa Nui, senti um frio na espinha ao ver que os passageiros na minha frente despachavam laranjas e caixas de isopor (repletas de comida) em vez de malas e mochilas comuns. Caraca, eu pensei: deve ser muito caro comer num lugar onde a comida chega de aviao. Decidi que em Rapa Nui, a melhor coisa era nao ter fome e agir como uma pessoa magra qualquer: comer muito de vez em quando e torcer pra nao ser convidada pra um jantar dancante de gala com tudo pago - por mim. Odeio fazer desfeita, ainda mais com um povo tao tradicional quanto o Rapa Nui.

Foi por isso que eu aceite participar do churrasco da Ana, a simpatica dona da pousadinha em que estou. Tao simpatica que me buscou no aeroporto com um colar de flores, que ela enfiou no meu pescoco na hora, e eu me senti na Ilha da Fantasia e senti ganas de dar gritinhos. O ingresso pro churrasco era um poquito de comida ou bebida, entao eu achei bastante honesto e fui ao supermercado comprar uma carninha.

Hahaha. Esquecam a carne em Rapa Nui: o supermercado tem metade das prateleiras vazias, e o que tem ou é em pó, ou é em lata. Ainda nao fizeram carne em pó, e até tinha carne em lata, mas eu achei mais churrascoso comprar umas coxinhas de frango semi-degeladas (que nao me ouca a vigilancia sanitária!) e levar pra festa. Entreguei a carga na mao do Teto, marido da Ana, e ele imediatamente colocou aquela carne toda mal ajambrada sobre a grelha. Eu, usando meu melhor portunhol, falei: "Nao, Teto, essa carne está toda sem tempero." Isso porque eu queria dizer o mínimo: nao tem tempero, nao está lavada, veio de um lugar imundo, foi embalada em saco plástico, está com pele, enfim. Vá falar essa porra toda em espanhol! Ele piscou pra mim e disse que iria temperar ali mesmo, sobre a grelha. Carajo, pensei. Será bien fueda para carajo comer essa mierda, es mejor agir como una persona magra, no sentir hambre, bla bla bla. Mas depois os caras te enchem de escudo e vinho, te dao uma folha dura como prato, explicam que ali se come com a mao mesmo, vai fundo muchacha, uma cachorrada em volta e eu passando a mao geral em todos eles, depois comendo com a mao uma mistura de salada, arroz e carnes que eu nao distinguia bem no escuro, um violeiro tocando musicas brasileiras soh pra eu cantar, eu cantando, e viva Brasil!, viva!, e ouvi com aguas nos olhos uma versao rapanui pra uma musica em espanhol que eu conheco, mas cujo nome nao recordo, e o mar estourando nas pedras ao fundo. Foi bonito demais.

Fiz dois passeios aqui, um de barco e um de sight-seeing. O snorkel foi uma enganacao danada: o barco largou a gente no meio do Pacífico, numa água de azul escuro tao escuro que eu pressenti tubaroes nheco-nhecando meu pequeno pernecho. Pra minha sorte, nao tinha tubarao nem peixe (que eu tenho fobia de peixe), mas foi meio frustrante ver um pontinho branco no fundo do oceano tao longe da gente, mas tao longe, que eu estalei meus ouvidos quase a ponto de ser surda pra sempre tentando chegar mais perto. E tudo o que vi foi... um pontinho branco bem lá dentro, no fundo. Talvez se eu fosse um golfinho. Talvez se fosse mergulhadora com aparato e o cacete. Mas é bacana estar no meio do Pacífico, de toda forma. Dá pra sentir um clima.

O violeiro que tocou musicas brasileiras no churrasco falava um portunhol super melhor que o meu, e com sotaque carioca. Teve um momento em que ele errou um acorde e disse, "Ih, caralho!", mas disse assim, como quem fala o nome de uma flor. Eu achei essa inocencia caralhistica bastante bonita. E nao há um segundo aqui em que eu nao pense que isso tudo é bonito pra caralho, e nao tem problema nenhum falar isso aqui, do umbigo do mundo, porque é tao longe que nao se escutam as coisas feias ou palavras cabeludas. E o lago vulcanico é bonito pra caralho, o mar é, o isolamento é, o mundo é, e a gente nao é nada, mas nada mesmo, perto da beleza que a vida nos reserva. Uma beleza tao perfeita, que eu comeco a entender Deus um pouquinho.

Rapa Nui é longe assim. Tao longe que eu sugiro que a expressao "na casa do caralho" seja sistematicamente substituída por "lá em Rapa Nui". Vai fazer mais sentido e soará bem mais florido que a palavra cabeluda em si.

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