Este é o meu quartinho de bagunça. Da embalagem vazia de Chokito ao último livro do Saramago que eu não terminei de ler, você encontrará aqui de tudo um pouco.

sábado, maio 30, 2009

Como tiranizar o superego maldito

De um mês pra cá, adotei a prática do autoelogio pra aplacar a fúria do meu superego maldito. O superego maldito é aquele que rivaliza com o superego bonzinho nas autocríticas. Se eu bebo demais, por exemplo, o bonzinho diz: "Ó, já chega tá? Você já bebeu demais, melhor parar senão amanhã vai encarar uma ressaca braba", ao passo que o malditão rosna: "Tá vendo?! Não sabe beber e acabou enchendo a cara! Você não tem jeito mesmo, não tem limites, não tem controle, nao tem vergonha nessa cara safada!" Como o maldito é sempre mais eloquente, é nele que eu acabo acreditando. Depois de tantos anos acreditando no mau, nem preciso dizer que minha autoestima, ó: andava super desmoralizada. Já que eu me autoescrotizo super bem, precisei implementar o autoelogio pra trazer minhas narinas acima da lama em que me afundei ao longo da vida e, assim, voltar a respirar os ares azuis de uma existência leve.

O autoelogio, como o nome bem diz, é o ato de elogiar a si próprio. Como eu andava bastante cabisbaixa, comecei a me elogiar por qualquer pequenina tarefa executada - do uso do fio dental à leitura diária do jornal -, pra ver se eu me animo a executar tarefas um bocado maiores, como ler (e entender) Nietzsche ou correr uma maratona. Sendo assim, toda vez que termino um treino de 8km, que está alguns bons 34 km aquém duma maratona propriamente dita, tasco-me uns beijinhos no dorso da mão ou nos ombros e digo:
- Muito bem, que boa menina, correu muito bem! Está de parabéns!

Também faço isso quando chego (parabéns, chegou!) e saio do trabalho (parabéns, trabalhou!), termino uma tradução, lavo uma pilha de louça, esfolio meus pés, guardo minhas roupas no armário, bebo 2 litros de água por dia, reciclo lixo ou apago as luzes quando sou a última a sair de um cômodo. Fiquei viciada nos meus elogios, e quanto mais eu me parabenizo, mais sinceros ficam meus efusivos louvores. Com isso, obviamente, meu superego maldito ficou deslocado e acabou fugindo de casa só com a roupa do corpo. Inicialmente, eu pensei: Ah, é? O cara não sabe de tudo? Não critica tudo? Agora quero ver ele se virar sem dinheiro nem pra passagem. Quero ver ele sobreviver à violência urbana. Quero ver é ele se fuder!!!

Passei uns dias me elogiando direitinho: você é ótima, seu superego é que é maldito. Isso de fugir é coisa de gente maldita. Deixa ele pra lá, que galinha de casa não se corre atrás!

Mas agora, que já passou a irritação, eu venho por meio deste humilde postzinho fazer um apelo: se vocês encontrarem meu superego maldito todo estropiado, vagando maltrapilho por aí, por favor avisem ao cara que ele já pode voltar pra casa, porque, mais um pouco, e eu vou me chamar Pollyanna e sair por aí dizendo que a existência é uma gracinha e Deus é um super fofoletão. Isto pode acabar me complicando, porque afinal, rélôu: eu sou brasileira e moro no Rio de Janeiro.

Malditinho, please: estou ficando esquisita sem você. Juntos, sobreviveremos! (Mim sem-noção. Mim precisar tuncê.)


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